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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Manaus - As Muitas Cidades, de Aldísio Filgueiras


O livro Manaus - As Muitas Cidades, de Aldísio Filgueiras foi publicado em 1994 e contém poemas de sua produção dos anos 1980 e início dos anos 1990. Trata-se de uma Edição do Autor e traz na contra-capa a seguinte descrição:

Neste livro de Aldísio Filgueiras, você não encontrará endereços de infâncias que os anos não trazem mais, nem roteiros sentimentais produzidos por alguma febre de nostalgia. Em MANAUS - AS MUITAS CIDADES a linguagem é uma fratura exposta, sem concessões. Um texto instigante e provocador. Aqui, a cidade é o homem e seus fragmentos. Imagine a cidade no plural.

Abaixo segue na íntegra um dos poemas que compoe o livro:


AS MUITAS CIDADES

Sim: existe uma cidade em nós.
Uma cidade tão singular
que se realiza apenas
no plural: Manaos-Manaus.

É de feira, a sua voz.
Mesmo em silêncio.

É de feira, a sua paz.
Como é sensível no sono
que a prostra ao longo
do rio, em suor e preguiça.

É de dúvida a sua dívida
e assim é que se decide em dois.

Daí que a cidade --em si e em nós --
se dá e se toma de volta. Um dia sim
outro dia, não. Feito um músculo
que se contrai ao sol
e grita e grita e grita e grita.

 
Como uma guitarra.

E não se ouve.

A palavra é a sua ambição
      -- em si e em nós.
Mas é o silêncio a sua expressão,
      linguagem em cimento e pedra.
Esta é toda a sua dicção.

A audição da voz que está em nós
não se ouve: morde-se.
Tão singular
que o plural é audiência: nós.

Manaos-Manaus: uma questão de sentido.

A cidade que existe em nós
      -- goela a dentro --
principia na água a sua história
e na água se apaga. A cidade
deságua de outro cenário.

Subúrbio.

A parede que ficou de pé
tem um olho no vazio.
Mas não há vizinhança.

A outra, ao cair de solidão,
Tinha o olho vazado: não pôde
ver que aquele chão (h)era
uma rua que logo seria ruína.

Um professor de pince-nez
recolheu o azul dos azulejos
e construiu um arquivo
de inconfessáveis sigilos.

Foi o bastante: inventou a memória
que é tudo o que fica da história.

A rua tomou outro rumo. Varandas
e telhados que acolhiam estrelas
e mangas viveram esse tempo de glória.

Quem viveu, viu -- em vão.

Meninos e meninas
     surgiram dessas ruínas.
Miseráveis meninos.
Miseráveis meninas.
Com raiva e com fome
armam o memorial do futuro:

não tem água que apague.

O rio continua
o seu delírio
de funcionário público.

(Até os rios cansam de correr para o mar)

A cidade que existe em nós
tem saudades do futuro.


Não tem água que se acabe.

Mas isto é para quem viverá.
Não existem águas paradas.

         Não:
   é verdade:
 não é a água
   que apaga:
    é a pedra
que esquece e acaba.

A cidade que existe em nós
não se erigiu sobre
cemitérios e índios.

Não violou os espaços
com pátrias e bandeiras.
Não ultrajou meninas e meninos.
Não estrangulou frutas e passarinhos.
Não inventou o crime dos gabinetes.
Não deu nome a fronteiras,
nem riscou sua intolerância nos mapas.
Não decretou seu próprio declínio.

Não não não não não não não não não e não.

        Sim:
   é metira:
tudo mentira
    a cidade
  que existe
em nós sequer
está no mapa.

A hipocrisia da pedra
não tem limites.
Ela veste o homem
e o engana com a eternidade.

Ela se chama cidade.

O seu brilho
não dura mais que uma noite.
Não acende sequer uma estrela.
Basta olhá-la com firmeza
e o verniz da vaidade deixa-a
nua -- como o olho da rua.

por falar nisso: já notou
que o mundo se acaba ao seu redor?

Ninguém é de pedra.
Só a cidade
que engana até a eternidade.

A cidade fabrica
bairros
quando não se suporta
e não cabe em si mesma:

Aí, Manaus é Manoa.
Aí, Manaus é Cidade Nova.
Aí, Manaus é Zumbi dos Palmares.
Aí, Manaus é Santa Etelvina
      -- a que morreu sem deixar herança.
Aí, Manaos é Manaus:
      uma questão de sentido.

Jamais a cidade que existe em nós.

Existe
uma cidade em nós
que aprende
a ter voz
       ... palavra e sentimento.

Nascer dói.

 


Aldísio Filgueiras

"Aldísio Filgueiras, poeta e compositor, nasceu em Manaus, no dia 29 de janeiro de 1947. Sua estreia literária aconteceu em 1968, com o livro de poemas Estado de sítio, que, depois de editado, teve sua circulação proibida pela censura. Obra poética: Malária e outras canções malignas (Manaus, 1976); A República muda (Manaus, 1989); Manaus - as muitas cidades (Manaus, 1994); A Dança dos fantasmas (Manaus, 2001); Nova subúrbios (Manaus, 2004)."

Fonte: Poesia e poetas do Amazonas, org. Tenório Telles e Marcos Frfederico Krüger. Manaus: Editora Valer, 2006.

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