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sábado, 20 de maio de 2017

FARMÁCIA LITERÁRIA - mediação de leitura e biblioterapia

O livro - Farmácia Literária
 Há pouco tempo descobri o termo biblioterapia e fiquei interessada. Li algumas coisas na internet sobre o conceito e fiquei mais interessada ainda. Indicar livros como forma de diminuir sofrimentos! Logo pensei em potencializar as ações de mediação de leitura.
E eis que hoje, encontrei na Livraria Saraiva este livro - Farmácia Literária, das inglesas Ella Berthoud e Susan Elderkin. Primeiramente a capa me chamou a atenção. E como sempre faço com os livros antes de comprar (quando eu não conheço), li a contra capa, as orelhas e folheei para observar a estrutura (e sentir o cheiro do livro). Não pensei duas vezes. Comprei!

Em um primeiro momento de leitura exploratória posso dizer que as duas autoras organizam o livro como um glossário de A a Z, com termos como adolescência; bom senso, falta de; coceira nos dentes; divórcio; estresse; felicidade, busca de; gripe; identidade, crise de... e por aí vai. Como exposto na capa são mais de 400 livros indicados ao longo das 374 páginas. Além dos males organizados de A a Z, o livro traz epílogo, um índice de males ligados à leitura, um índice de listas e um índice de autores e livros (maravilhoso!). Para cada um dos termos elas apresentam um ou mais livros. É uma conversa em que elas retomam o "mal" (definido pela palavra/termo), apresentam o livro com uma sinopse do personagem relacionando ao "mal" apresentado e concluem com a recomendação para a "cura" do leitor. Trazem também outros verbetes relacionados. É uma escrita bem fácil, direta e divertida.
Ella e Susan.
Fonte: Página Cinco

A  proposta é a biblioterapia, pois as autoras se auto-denominam biblioterapeutas que seguem prescrevendo livros. Elas se conheceram quando estudavam literatura inglesa na Universidade de Cambridge e em 2008 montaram um serviço de biblioterapia na The School of Life.








Estou animada com a leitura e acredito que vai ampliar bastante as minhas atividades de mediação de leitura literária. Porque o próprio texto tem esse caráter de instigar a curiosidade para o livro apresentado. Já marquei várias obras que eu não conhecia e que fiquei com vontade de ler. E ao observar a capa, pensei em produzir várias garrafas com nomes de autores. Já vi alguma coisa assim como cápsulas com pequenos trechos escritos para serem retirados do frasco etiquetado como doses homeopáticas de Rubem Alves, por exemplo. Adoro coisas que me dão mais ideias assim.

Contra capa do livro - Farmácia Literária
Ao ler o livro fiquei pensando também que minha mãe queria que eu fizesse medicina. Embarquei em outros caminhos e cheguei ao doutorado, posso ser chamada de doutora. E assim, como as autoras, também ando prescrevendo livros. (mas já me deu vontade de criar um receituário... rsrs).

P.S. Quer uma segunda opinião sobre o livro, leia o Blog Página Cinco.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

SEMANA SANTA

A Última Ceia
Juan de Juanes, 1560



Esta semana, na tradição católica cristã, comemoramos a Semana Santa, um conjunto de ritos que relembram a chegada de Cristo à cidade de Jerusalém, sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Crescida em uma família católica que reverenciava todos os rituais, lembro que quando criança, ouvia de minha avó as histórias sobre essa data. Ela determinava a nossa vida durante toda a semana que começava no Domingo de Ramos, ganhava forma na Quinta-feira Santa, tinha o seu auge dramático e introspectivo na Sexta-Feira da Paixão, passava pela inquietação do Sábado de Aleluia e transbordava de alegria no Domingo de Páscoa.

Ir à missa fazia parte dos ritos. Não comer carne também. Era a semana toda de peixe. Mas tinha o jejum. Não podíamos comer muito (eu não gostava dessa parte!). 

No Domingo de Ramos, ao voltarmos da missa, colocávamos na porta a cruz de palha (o ramo distribuído durante a celebração, com procissão que lembrava a entrada de Jesus em Jerusalém). Essa cruz nos incluía no povo escolhido e protegido por Deus. E a cruz de palha ficava na porta até se decompor. 

O restante da semana (segunda, terça e quarta) nossa rotina era marcada pela desaceleração, pela introspecção, nada de falar alto, rir, gritar, correr. Íamos parando aos poucos. E sempre cercada pelas histórias de minha avó, vinda de Tarauacá, interior do Acre. 

Na escola, até a 4ª série, ainda fazíamos coelhinhos de cartolina e ganhávamos chocolate da professora (pena que a partir da 5ª série isso se perdeu!).

Chegando a Quinta-feira Santa, não havia aula e ficávamos em casa. Era o dia em que minha mãe e tia preparavam as comidas para a sexta-feira. Sempre tinha mungunzá. Até hoje não sei qual a relação com o rito cristão, só sei que Semana Santa significava comprar milho branco e fazer mingau, com castanha ou coco (nossa! pense numa coisa gostosa!... mas não esquece que estávamos jejuando).

As comidas eram feitas pela manhã: tratar o peixe, separar a banana, preparar o mungunzá. No final da tarde, íamos à missa e à procissão onde ganhávamos os ramos para proteger nossas casas. 

Chegando na Sexta-Feira Santa, nossa! Tudo parava! Minha avó dizia que no interior, quando dava meio-dia, o horário em que Cristo havia sido crucificado (sim, ela sabia até os horários todos!), os pássaros não cantavam, nenhum bicho fazia barulho e até o rio parava! Ano após ano eu ouvia essa história e ficava encantada com a ideia de que o rio parava. E pensava, se até o rio parava, eu não poderia correr, tinha que ficar quietinha. 

Nesse dia nós nem penteávamos os cabelos (pelo menos no tempo da minha avó). Se fizéssemos qualquer coisa assim, que remetesse ao trabalho, ela logo nos chamava de Judas, e, acredite, tudo o que menos queríamos éramos ser chamados de Judas, porque ele traiu Cristo e causou-lhe todo o sofrimento. Depois eu fui entender que fazia parte da história Cristo passar por esse sofrimento, morrer para ressuscitar. Mas enquanto criança, Judas representava a traição.

Lembro que o silêncio nesse dia imperava. Logo ao acordar já sabíamos que se tratava da Sexta-feira Santa porque falávamos muito baixo. Quase não comíamos. E no final da tarde, íamos à procissão, passando por toda a Via-Sacra, que é o percurso de 14 Estações (paradas), onde íamos relembrando a caminhada de Cristo até o calvário. Agora a Via-Sacra é encenada e fica mais realista. Acompanhamos um Cristo carregando sua cruz e sendo crucificado. 

Ah, antes de irmos à missa, tinha o filme da Paixão de Cristo. Todos assistíamos. E todos choravam todas as vezes em que Cristo morria na cruz. O catecismo ajudava a memorizar as frases-chave desse momento. Cristo à beira da morte, na Cruz, olha para sua mãe Maria, que chora e para João, seu apóstolo mais novo e diz:

- Mãe, eis aí o teu filho!
- Filho, eis aí a tua mãe!

E desse momento em diante, nos consideramos filhos de Maria. Lembro de tudo isso, porque além de ter sido uma história contada por anos e anos, ter sido lida na Bíblia, relembrada nas celebrações litúrgicas, também era algo muito forte e vivido em casa. De alguma forma nós tínhamos que passar por privações e sofrer um pouco, porque esse Cristo havia sofrido muito por nós. Nossa família não tinha posses, mas os ritos de simplicidade, jejum e penitência, nos aproximavam desse Deus que também tinha sido podre e sofrido muito. Nos uníamos a ele pela pobreza e pelo sofrimento. E claro, depois, pela esperança de passar daquele sofrimento para uma vida de alegrias. A nossa Páscoa era essa esperança. 

No Sábado de Aleluia, a história que ouvíamos era a de que Judas tinha sido enforcado. E víamos alguns bonecos de pano presos em postes. Quando eu era criança, eu não via crueldade nisso. Fazia parte da história. Todos os anos ele ia trair Cristo e seria enforcado. Hoje, conhecendo outras versões, acho cruel. Cristo já sabia de tudo que ia acontecer e Judas contribuiu para os planos divinos. 

Nesse dia começávamos a brincar, mas tinha o medo de apanhar, porque na sexta, era terminantemente proibido bater em uma criança, mas no sábado... Sábado era dia dos castigos. E também era o dia em que as pessoas que tinham galinhas, precisavam ter cuidado, porque elas poderiam ser roubadas à noite. Também não entendo bem! Mas era um dia de tumulto.

E chegava o Domingo de Páscoa! Nesse dia podíamos comer mais! Era o dia de comemorar a ressurreição de Cristo! A missa era mais alegre e festiva! Muitos cantos alegres! Não lembro bem o momento em que passamos a ganhar chocolate e comemorar com ovos de Páscoa esse dia. Acho que foi quando começamos a ter um pouco mais de dinheiro.

Estudar catecismo (fazer as leituras bíblicas), me ajudaram a entender esse momento. Ler sobre outras culturas também me fez ampliar o olhar sobre esse ritual cristão. A Páscoa significa sempre uma renovação de aliança de um Deus que nos ama, que se doa e que nos convida a acreditar que podemos também fazer essa passagem de um momento de dor para um momento de alegria. Podemos superar problemas, podemos renascer sempre. 

Muito do meu otimismo e minha forma de encarar a vida vem dessas crenças e de como a minha família sempre vivenciou a tradição cristã e a incorporou no seu dia-a-dia. Cristo representa para nós, alguém que amou, sofreu, morreu e ressuscitou! E essa ressurreição comemorada no Domingo de Páscoa, simboliza essa vitória contra a dor, o sofrimento, as injustiças. 

Feliz Páscoa!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ASSIS a cidade de São Francisco

Cidade de Assis - Placa de identificação

A história de São Francisco de Assis é uma das mais conhecidas do cristianismo e vai além do mundo dos católicos. O homem que viveu na Idade Média e que desafiou a família deixando tudo para trás por acreditar que o Cristo, aquele que morreu na cruz, não pregava o acúmulo de riquezas e que por isso, a Igreja Católica medieval estava indo para outros caminhos. Com isso deu início a outro segmento da própria Igreja Católica, a Ordem dos Franciscanos, que pregava a humildade e a simplicidade.

Contraditório mas, igrejas dedicadas a São Francisco de Assis, no mundo todo, são as mais ricas e luxuosas. Mas esse post não vai se dedicar a essas questões. O objetivo aqui é apresentar a cidade onde nasceu e viveu Francisco de Assis, uma cidade italiana que ainda guarda toda a sua estrutura medieval e proporciona ao visitante uma incrível viagem no tempo.


A caminho de Assis
Vista da cidade de Assis

É possível chegar à Assis de carro, saindo de Roma. A estrada é muito boa e é uma paisagem com muita vegetação e poucas construções o que se tem ao longo do trajeto.

Um ponto emocionante é avistar no alto, as primeiras imagens que se tem da cidade de Assis. Pedras brancas decorando o monte.







Ao se aproximar mais é possível perceber a Igreja ou Basílica de São Francisco de Assis, com sua torre à esquerda. E a cidade de Assis, literalmente cercando o monte. Como se toda ela fosse uma grande muralha. Uma imagem que nos tira o fôlego.

Interessante pensar na imagem das cidades vistas de longe. Em Assis, uma cidade alta, pois que a vemos de baixo, da estrada, têm-se esse desenho de contorno do monte.


Portal de entrada da cidade de Assis


Ao chegar na cidade de Assis é possível avistar esse portal que dá acesso à entrada da cidade. Acima do portal tem-se um texto em latim.


Texto na entrada da cidade de Assis


















Entrada da cidade de Assis.


Esta é uma das principais entradas da cidade. Ao fundo, vê-se o portal e do lado direito o conjunto arquitetônico como um grande muro de pedra, com janelas e delicadas flores decorando.

Casas da cidade de Assis


Como a cidade foi construída em torno de um monte, as ruas e casas foram seguindo as inclinações naturais do terreno.

São construções que remontam o período medieval, feitas de pedras, com poucas janelas e ruas muito estreitas. Esse conjunto favorece uma verdadeira viagem no tempo.






Escadarias entre as casas de Assis

Entre as casas e para ligar uma rua à outra, existem muitas escadarias semelhantes a essa. Além de proporcionar a circulação das pessoas, também faz a cidade respirar.

Sem contar que é um charme a mais no imaginário de quem visita a cidade pela primeira vez. Causa a surpresa! Não sabemos o que podemos encontrar no final ou no começo da escada, entre um prédio e outro.

Quando caminhei por aqui toquei as paredes geladas de pedra e fiquei imaginando o que já teria acontecido nessa viela... quantas vidas, quantas surpresas, quantos crimes, quantos amores.

Esse espaço entre os prédios, as paredes de pedra, deixam a cidade com esse ar de cidade de outro tempo. Inevitável a sensação de paz ao se respirar ali.


Vitrine de doce em Assis





Para quem gosta de doces, a cidade também oferece vitrines cuidadosamente arrumadas, exibindo uma infinidade de pães, doces e outras guloseimas. Impossível não se encantar com o zelo com a organização dessas vitrines. Parecem espaços que eu não ousaria macular tirando um doce sequer. Eles ficam ali, parados, tentando os olhos de quem passa.









A seguir, mais imagens da cidade de Assis.


Placa de identificação do município de Assis


Exemplar de painel encontrado nas paredes nas fachadas das construções


Construções de Assis.

Fonte em uma das praças de Assis

Placa com identificação da cidade

Vista da Igreja de São Francisco de Assis


Exemplar de construções emparelhadas na cidade de Assis

Vista das construções de Assis com painéis decorativos

Igreja de São Francisco de Assis
Sou católica e tenho em São Francisco de Assis, meu santo protetor. Por que? Porque minha avó contava suas histórias. Contava dos festejos dedicados a ele em Tarauacá, interior do Acre, extremo norte do Brasil, onde ela nasceu e foi criada. E minha avó tinha um quadro com a imagem de São Francisco, com o qual aparece na primeira fotografia feita na casa recém-comprada em Manaus, no começo dos anos 1970.

Nos dias 24 e 25 de junho de 2006, tive a oportunidade de passar por Assis e ver de perto a cidade onde o Francisco das histórias da minha avó nasceu. Hoje, dia 4 de outubro de 2016, dez anos depois, eu escrevo esse post. Rememorando a viagem, rememorando o culto a Francisco de Assis e minha avó que sequer imaginou que um dia, alguém da família andaria por essas bandas. 

domingo, 31 de julho de 2016

EU SOU MALALA - Malala Yousafzai com Christina Lamb

Eu sou Malala
"Quando o Talibã tomou o controle do Vale do Swat, uma menina levantou a voz.

Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou por seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012 ela quase pagou por isso com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus enquanto voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria.

A recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para os salões das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e em 2014 tornou-se a mais jovem vencedora da história do prêmio Nobel da paz"

Este é o texto da contra-capa do livro. Por si só ele chama a atenção para a história que vai ser contada, centralizada na adolescente chamada Malala. Mas o conteúdo do livro nos revela muito mais que uma história de sobrevivência. Nos revela sobre diferenças culturais e crenças religiosas radicais tão fortes que estão presentes nesse complexo século XXI e que assustam o mundo.

O livro nos apresenta, a partir da história de Malala, um panorama histórico-cultural-político do mundo muçulmano, cercado de conflitos sangrentos. Pelos olhos de Malala e da jornalista Christina Lam, vemos versões sobre acontecimentos que chocaram o mundo, como o 11 de setembro, o assassinato de Banzir Bhutto, as atrocidades do Talibã, a morte de Osama Bin Laden e os acidentes naturais da região do Paquistão.

Vou comentar alguns pontos que me chamaram a atenção durante a leitura:

1. O nome Malala.
O livro ganha um tom de "premunição" quando ela conta o significado do seu nome. Uma homenagem a uma heroínas das histórias do seu país, uma menina que inspirara os homens a lutarem e morre em batalha. Ela também conta que várias escolas recebem o nome dessa heroína - Malalai, "a Joana d´Arc dos pachtuns" (a região onde nasceu Malala).


2. O pai de Malala.
Durante boa parte parece ser sobre ele que o livro trata, tanto é o destaque dado. Ele é o articulador, é quem educa, quem instiga, inspira, constrói, dá voz à Malala. Toda a primeira parte do livro é direcionada ao papel do pai na vida de Malala. Compreensível, pois trata-se de uma sociedade onde os homens tem papel principal.

3. A consciência política de Malala.
Algo que o livro vai mostrando aos poucos. Malala cresce em um ambiente de discussões políticas, uma vez que seu pai é articulador político na comunidade em que mora. Ela está presente às discussões, seu pai lhe conta sobre os conflitos, ela o vê lutando pelo que considera correto. E ela estuda e lê muito. Além de ser incentivada a ter pensamentos próprios, a questionar as coisas. Começa a dar entrevistas sobre o direito de estudar aos 11 anos, período em que também começou a contar para a BBC, sobre a vida no Swatt, invadida pelo Talibã, através de um Diário que era publicado com um pseudônimo.

4. A cultura afegã.
Pela descrição de Malala, vê-se o ambiente de conflitos, mas também o cotidiano de uma cultura completamente diferente da nossa. As descobertas a cada página são riquíssimas, porque nos ajuda a pensar e repensar sobre como as leis são criadas, como os costumes são inventados e como e até que ponto pode ir o radicalismo em uma cultura pautada pela religião. Há muitas características que diferenciam os afegãos. Mas quando vemos pela tv sobre os conflitos, lemos como um grande bloco. Mas não é assim. É especialmente esclarecedor, ler através de Malala, sobre como o Talibã chegou ao vale em que morava e quais as consequências para seu povo.

5. A mulher afegã.
Um dos pontos mais ricos do livro, no contexto da cultura, é ver qual o espaço e o papel da mulher na cultura afegã e para o Talibã. Ler sobe a mulher afegã é refletir também sobre os direitos de todas as mulheres em qualquer outro lugar, inclusive no Brasil. É pensar que muitos direitos ainda precisam ser conquistados e que precisamos ficar atentos para que outros tantos não nos sejam retirados.

Do que fica da leitura, uma grande preocupação sobre a situação atual do Brasil em meio a essa crise, a bancada política, as manifestações, a nossa condição de cultura plural. Em muitas passagens do livro, parecia-me anúncios do que pode acontecer também aqui. Preocupante!

Mas Malala continua lutando pela educação, porque considera essa a maior arma. As palavras têm poder. O direito à educação precisa ser partilhado por todos. E isso significa uma educação crítica, que forme cidadãos pensantes e que queiram mudar o mundo. E como professora, eu acredito nessa mudança. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

MORTE DE TINTA - Cornelia Funke

Morte de Tinta - Cornelia Funke

Emocionante!
Gostei demais do encontro com essa escritora e com essa obra, a trilogia Mundo de Tinta, do qual Morte de Tinta é o terceiro livro. Fiquei preocupada de sentir-me órfã ao concluir a leitura. Mas ele não foi tecido para esse sentimento, pelo menos penso que não. Este livro foi tecido para abrir outros mundos com palavras. Que incrível isso!

Cada livro é maravilhoso na sua história, nos inúmeros conflitos, nas idas e voltas dos seus personagens fabulosos.  Sim, o Mundo de Tinta é capaz de nos prender. E nos prende em Ombra, na Floresta sem Caminhos, nos inúmeros esconderijos dos ladrões, nos castelos...

Mas o livro é também maravilhoso nas revelações sobre o mágico ofício de escrever, de criar histórias. Sobre a responsabilidade e a beleza da criação! Sobre o poder das palavras! Sobre o encantamento com esse objeto que pode ser mágico: o livro! E ainda tem o poder de transformar o próprio leitor no seu contato com o livro, no seu ato de ler. Não sou a mesma leitora depois de sair do Mundo de Tinta.

Os personagens vão sendo criados ao longo da história, e o leitor vai acompanhando isso. Existe um mundo dentro do livro, o leitor é convidado a entrar nele e viver as mais loucas e dolorosas aventuras junto com os seus personagens magníficos. E a gente ri e chora e se emociona e sofre a todo momento.

Esse terceiro livro é mais suspense, porque já sabemos que é o terceiro e que a história precisa encerrar e ficamos nos perguntando: Como? O que vai acontecer com Gaio? E com Dedo Empoeirado? Meg vai voltar para a casa de Elinor com sua biblioteca? Claro que não vou contar nenhum desses detalhes aqui. Porque para mim esta história ainda não terminou. Eu vou retornar a ela outras vezes.

E pretendo retornar para ir seguindo cuidadosamente a trilha que a autora vai deixando, sobre como escrever uma boa história. Ela vai dando pistas e contando segredos sobre o ofício de escrever. E eu ainda fico pensando como ela conseguiu juntar tantos trechos de livros para iniciar cada um dos capítulos dos três livros. Achei isso incrível! E como ela esconde a história nos títulos dos capítulos. Ela esconde nos títulos e revela nos trechos que usa como epígrafe.

Gostei muito como ela conduziu esse terceiro livro, cheio de drama, de perdas, de idas e voltas, de suspenses, de tantas mortes e como ao final, foi acalmando o leitor, trazendo-o de volta ao seu próprio mundo e preparando-o para entrar em outros mundos feitos de palavras, outros mundos de tinta.

Sim, eu chorei. Mas chorei pelos amores que se perderam (falando dos personagens), não pelo fim da história. Porque é o tipo de história que não tem fim. E quanto aos livros, vou voltar a eles. Coração de Tinta, Sangue de Tinta e Morte de Tinta me conquistaram. É um mundo fascinante, feito de personagens marcantes e inesquecíveis! E a arquitetura de sua construção é tão envolvente quanto a história.

Que maravilha é poder ter pessoas com esse poder, de criar portas entre mundos e de criar mundos com palavras!



Sobre o segundo livro - Sangue de Tinta:
https://paneiro.blogspot.com.br/2016/05/sangue-de-tinta-cornelia-funke.html

Sobre o primeiro livro - Coração de Tinta:
https://paneiro.blogspot.com.br/2013/05/prazer-em-ler-coracao-de-tinta.html

terça-feira, 5 de julho de 2016

PROJETO CIRCULANDO

Projeto Circulando - Foto de capa.

Sabe aquele livro que você leu, gostou (ou não), se emocionou, reviveu, viajou... e depois foi parar na sua estante? Alguns livros viram acervo para outras atividades. Alguns livros você pode querer guardar para reler. Mas alguns livros podem circular. Foi pensando nisso que surgiu a ideia do projeto Circulando. E também porque, ao aderir ao Desafio Literário, adquiri muitos livros infanto-juvenis de escritores contemporâneos, o acervo pessoal aumentou e fiquei pensando em desapegar, como já fiz em outras ocasiões.

Projeto Circulando - Marca oficial.



A marca do projeto foi criada pelo estudante de Design, Bosco Leite. Ele procurou dar à leitura uma ideia de diversão, cor, e o circular como um carrossel, uma brincadeira mesmo. É o que pensamos sobre a literatura infanto juvenil. Sobre como ela poderia ser apreciada, com prazer.







Bosco também produziu o material gráfico para o Projeto, que consiste em uma ficha de identificação do leitor, que vai afixada nos livros que colocarmos para circular. A ficha nos remete à ideia das antigas fichas de empréstimos, comuns nas bibliotecas antes do sistema por código de barras. Pretendemos que as pessoas deixem seus nomes registrados e as datas, construindo assim uma história da circulação dos livros. Também temos um marcador de livro.

Projeto Circulando - Material gráfico. 

Projeto Circulando -
Marcador de livros.

O marcador de livros do projeto Circulando traz a marca da UEA - Universidade do Estado do Amazonas, uma vez que o projeto surgiu durante as aulas da disciplina de Literatura Infanto Juvenil, no Curso de Licenciatura em Letras, da Escola Normal Superior. Os empréstimos já estavam acontecendo durante a disciplina. O projeto veio para ampliar e oficializar a ideia. Por isso então, apresenta também a marca que foi criada para a disciplina, pela estudante de Design Clícia Vidal, que também é a autora da minha marca pessoal, que aparece no final do marcador (a história dessas marcas dá um bom post também).

Consideramos importante esse trabalho interdisciplinar envolvendo o Design e a Educação. Transformar as ideias em conceitos perceptíveis e de fácil associação, não é uma tarefa muito simples. Mas esses profissionais conseguem. E deixam a ideia da viagem pelas folhas dos livros, muito mais atrativa visualmente. É só parar para pensar quantas vezes nos deparamos com livros que nos encantam pela capa. 

E assim o Projeto foi oficialmente lançado no dia 24 de junho de 2016, durante a aula de encerramento da disciplina. E os primeiros a levarem os livros e darem início ao Circulando, foram os próprios alunos. 

Abaixo estão as fotos dos livros e seus leitores. 




Projeto Circulando - primeiros livros a circular.

Circulando - Branca de Neve
O acadêmico Alysson Siqueira fez a doação do livro Branca de Neve, em quadrinhos e quem ficou encantada e acabou levando o livro foi a Vick Moraes. 

Circulando - Como eu era antes de você.

Circulando - Eleanor & Park



















O prof. Valdemir Oliveira, escolheu a Laura e a Silvia, para se deliciarem com essas leituras e colocarem para circular também. Laura levou Como eu era antes de você e a Silvia ficou com Eleanor & Park.








Circulando - Diário de um banana
Circulando - Fala sério, Professor!

























Para fechar a festa de lançamento do projeto, o Marcos Daniel acabou levando, Diário de um banana, para se divertir no final de semana. E a Maria Eloyse, foi curtir o Fala sério, Professor

E assim foi o abre alas do Projeto Circulando, que segue com uma página no face, onde podem ser acompanhados os novos livros e seus respectivos leitores. A ideia é que quem recebe o livro do projeto, leia e faça circular, repassando para outra pessoa e fazendo um registro para a nossa página virtual, para sabermos por onde andam os livros e o que eles estão causando nos diversos leitores.

Nosso sonho é ampliar o projeto para além dos espaços da universidade. Para tanto, aceitamos doações. É só entrar em contato. E para saber mais detalhes, podem entrar em contato através da nossa página também. 

E vamos continuar CIRCULANDO diversão, magia e encantamento com e pela leitura infanto juvenil e todas as outras leituras que nos fazem viajar, encantar e nos dão prazer.



domingo, 22 de maio de 2016

ELEANOR & PARK - Rainbow Rowell

Eleanor & Park

Ah, o primeiro amor!
A história de Eleanor & Park, nos leva de volta aos tempos de escola, as amizades e inimizades, as descobertas de mundo que vão nos acompanhar durante toda a vida e o primeiro amor. Quem lembra? Quem esquece? Do primeiro beijo, do primeiro amasso escondido, dos primeiros desejos e das primeiras noites mal dormidas pensando em alguém, do primeiro amor?

Esse livro tem esse tom. Um livro leve, gostoso de ler, que emociona e nos faz viajar para um tempo em que as descobertas tinham outro sabor. Esse sabor que vamos perdendo com os tropeços e a aceleração de tudo. Quem se dá conta, na vida adulta, do brilho dos olhos do seu amado ao vê-lo? Ou toca a sua mão como se fosse a coisa mais preciosa do mundo? Ou abraça como se não restasse mais nada a fazer?

O livro foi publicado originalmente em 2013 e esta edição em português é de 2014. Ao todo são 326 páginas. O romance se passa na segunda metade dos anos 1980. Quem viveu essa época vai reconhecer bem a trilha sonora , se for uma aficcionado por música norte-americana, pois os personagens curtem muito as bandas de rock.

Os dois personagens tem 16 anos, famílias diferentes, comportamentos diferentes, mas encontram afinidades em muitas coisas. A Eleanor lembra Isabel, de Pedro Bandeira em A Marca de Uma Lágrima. O complexo de se sentir acima do peso aceito pela sociedade. Num momento de afirmação de identidade isso pesa tanto para os adolescentes. E Park, com seus conflitos de aceitação com o pai. São tantos os conflitos nessa fase da vida, que vão deixando a escola cada vez mais sem saber como lidar com isso. Não que tenha que cuidar das situações exteriores à escola, como os problemas familiares, mas porque ainda não consegue ligar com as situações internas, hoje chamados de bullyng, por exemplo.

A autora traz isso, os conflitos pessoais de construção e reafirmação da identidade, os conflitos familiares, os conflitos na escola. O romance tem todo esse pano de fundo. Sem contar com a paisagem de parte da vida norte-americana de subúrbio. É uma forma de conhecer outra cultura e outros comportamentos. A forma de se vestir é uma das principais características apresentadas para Eleanor, como marca da sua personalidade. A roupa tem essa função. Nos vestimos para nos mostrar ao mundo ou para nos esconder dele. Dizemos o que somos pelo que vestimos. Estudos sobre a história social da moda dão conta dessas reflexões.

Mas o que me conquistou no livro não foram as reflexões racionais. Foram as emoções. O livro me arrebatou. Foi lido em um final de semana. Eu torci do começo ao fim pelo amor dos dois. Gostei como a autora terminou, nos dando chance de sonhar com uma "parte 2, o retorno de Eleanor & Park". E ao mesmo tempo em que lia, reavivava em mim a memória dos meus amores, dos encontros que me deixaram com um frio na barriga, de quem me deixou noites sem dormir e das vezes em que esse sentimento foi correspondido. A sensação é que vamos perdendo isso em meio ao acúmulo desnecessário da vida prática. Parece que hoje não há mais tempo para viver cada segundo e saborear essas descobertas.

Que bom que temos os livros para nos lembrar de tanta coisa que vamos deixando pelo meio do caminho. Como o primeiro amor e todos os amores que nos fazem sentir como se fosse a primeira vez. Aos que estão nessa fase tão linda da vida, o livro ajuda a pensar nas histórias com um toque de realidade e encantamento. Àqueles que são adultos e são românticos e ainda guardam essa chama em si, podem ler para senti-la mais forte, alimentá-la. E aos que desistiram, pensem no livro como um "tempo roubado" para pensar no amor.



29

eleanor

Quando ela viu Park no ponto de ônibus, na manhã da segunda, caiu no riso. Verdade; riu feito personagem de desenho animado... quando ficam com as bochechas vermelhas, e coraçõezinhos começam a pipocar de dentro dos ouvidos...
Foi ridículo.

park

Quando viu Eleanor vindo até ele na segunda de manhã, Park quis correr até ela e tomá-la nos braços. Como um daqueles caras das novelas a que a mãe dele assistia. Ele apoiou as mãos nas alças da mochila para se conter...
Foi meio que maravilhoso.

(página 171, depois do primeiro beijo)