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terça-feira, 4 de outubro de 2016

ASSIS a cidade de São Francisco

Cidade de Assis - Placa de identificação

A história de São Francisco de Assis é uma das mais conhecidas do cristianismo e vai além do mundo dos católicos. O homem que viveu na Idade Média e que desafiou a família deixando tudo para trás por acreditar que o Cristo, aquele que morreu na cruz, não pregava o acúmulo de riquezas e que por isso, a Igreja Católica medieval estava indo para outros caminhos. Com isso deu início a outro segmento da própria Igreja Católica, a Ordem dos Franciscanos, que pregava a humildade e a simplicidade.

Contraditório mas, igrejas dedicadas a São Francisco de Assis, no mundo todo, são as mais ricas e luxuosas. Mas esse post não vai se dedicar a essas questões. O objetivo aqui é apresentar a cidade onde nasceu e viveu Francisco de Assis, uma cidade italiana que ainda guarda toda a sua estrutura medieval e proporciona ao visitante uma incrível viagem no tempo.


A caminho de Assis
Vista da cidade de Assis

É possível chegar à Assis de carro, saindo de Roma. A estrada é muito boa e é uma paisagem com muita vegetação e poucas construções o que se tem ao longo do trajeto.

Um ponto emocionante é avistar no alto, as primeiras imagens que se tem da cidade de Assis. Pedras brancas decorando o monte.







Ao se aproximar mais é possível perceber a Igreja ou Basílica de São Francisco de Assis, com sua torre à esquerda. E a cidade de Assis, literalmente cercando o monte. Como se toda ela fosse uma grande muralha. Uma imagem que nos tira o fôlego.

Interessante pensar na imagem das cidades vistas de longe. Em Assis, uma cidade alta, pois que a vemos de baixo, da estrada, têm-se esse desenho de contorno do monte.


Portal de entrada da cidade de Assis


Ao chegar na cidade de Assis é possível avistar esse portal que dá acesso à entrada da cidade. Acima do portal tem-se um texto em latim.


Texto na entrada da cidade de Assis


















Entrada da cidade de Assis.


Esta é uma das principais entradas da cidade. Ao fundo, vê-se o portal e do lado direito o conjunto arquitetônico como um grande muro de pedra, com janelas e delicadas flores decorando.

Casas da cidade de Assis


Como a cidade foi construída em torno de um monte, as ruas e casas foram seguindo as inclinações naturais do terreno.

São construções que remontam o período medieval, feitas de pedras, com poucas janelas e ruas muito estreitas. Esse conjunto favorece uma verdadeira viagem no tempo.






Escadarias entre as casas de Assis

Entre as casas e para ligar uma rua à outra, existem muitas escadarias semelhantes a essa. Além de proporcionar a circulação das pessoas, também faz a cidade respirar.

Sem contar que é um charme a mais no imaginário de quem visita a cidade pela primeira vez. Causa a surpresa! Não sabemos o que podemos encontrar no final ou no começo da escada, entre um prédio e outro.

Quando caminhei por aqui toquei as paredes geladas de pedra e fiquei imaginando o que já teria acontecido nessa viela... quantas vidas, quantas surpresas, quantos crimes, quantos amores.

Esse espaço entre os prédios, as paredes de pedra, deixam a cidade com esse ar de cidade de outro tempo. Inevitável a sensação de paz ao se respirar ali.


Vitrine de doce em Assis





Para quem gosta de doces, a cidade também oferece vitrines cuidadosamente arrumadas, exibindo uma infinidade de pães, doces e outras guloseimas. Impossível não se encantar com o zelo com a organização dessas vitrines. Parecem espaços que eu não ousaria macular tirando um doce sequer. Eles ficam ali, parados, tentando os olhos de quem passa.









A seguir, mais imagens da cidade de Assis.


Placa de identificação do município de Assis


Exemplar de painel encontrado nas paredes nas fachadas das construções


Construções de Assis.

Fonte em uma das praças de Assis

Placa com identificação da cidade

Vista da Igreja de São Francisco de Assis


Exemplar de construções emparelhadas na cidade de Assis

Vista das construções de Assis com painéis decorativos

Igreja de São Francisco de Assis
Sou católica e tenho em São Francisco de Assis, meu santo protetor. Por que? Porque minha avó contava suas histórias. Contava dos festejos dedicados a ele em Tarauacá, interior do Acre, extremo norte do Brasil, onde ela nasceu e foi criada. E minha avó tinha um quadro com a imagem de São Francisco, com o qual aparece na primeira fotografia feita na casa recém-comprada em Manaus, no começo dos anos 1970.

Nos dias 24 e 25 de junho de 2006, tive a oportunidade de passar por Assis e ver de perto a cidade onde o Francisco das histórias da minha avó nasceu. Hoje, dia 4 de outubro de 2016, dez anos depois, eu escrevo esse post. Rememorando a viagem, rememorando o culto a Francisco de Assis e minha avó que sequer imaginou que um dia, alguém da família andaria por essas bandas. 

domingo, 31 de julho de 2016

EU SOU MALALA - Malala Yousafzai com Christina Lamb

Eu sou Malala
"Quando o Talibã tomou o controle do Vale do Swat, uma menina levantou a voz.

Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou por seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012 ela quase pagou por isso com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus enquanto voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria.

A recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para os salões das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e em 2014 tornou-se a mais jovem vencedora da história do prêmio Nobel da paz"

Este é o texto da contra-capa do livro. Por si só ele chama a atenção para a história que vai ser contada, centralizada na adolescente chamada Malala. Mas o conteúdo do livro nos revela muito mais que uma história de sobrevivência. Nos revela sobre diferenças culturais e crenças religiosas radicais tão fortes que estão presentes nesse complexo século XXI e que assustam o mundo.

O livro nos apresenta, a partir da história de Malala, um panorama histórico-cultural-político do mundo muçulmano, cercado de conflitos sangrentos. Pelos olhos de Malala e da jornalista Christina Lam, vemos versões sobre acontecimentos que chocaram o mundo, como o 11 de setembro, o assassinato de Banzir Bhutto, as atrocidades do Talibã, a morte de Osama Bin Laden e os acidentes naturais da região do Paquistão.

Vou comentar alguns pontos que me chamaram a atenção durante a leitura:

1. O nome Malala.
O livro ganha um tom de "premunição" quando ela conta o significado do seu nome. Uma homenagem a uma heroínas das histórias do seu país, uma menina que inspirara os homens a lutarem e morre em batalha. Ela também conta que várias escolas recebem o nome dessa heroína - Malalai, "a Joana d´Arc dos pachtuns" (a região onde nasceu Malala).


2. O pai de Malala.
Durante boa parte parece ser sobre ele que o livro trata, tanto é o destaque dado. Ele é o articulador, é quem educa, quem instiga, inspira, constrói, dá voz à Malala. Toda a primeira parte do livro é direcionada ao papel do pai na vida de Malala. Compreensível, pois trata-se de uma sociedade onde os homens tem papel principal.

3. A consciência política de Malala.
Algo que o livro vai mostrando aos poucos. Malala cresce em um ambiente de discussões políticas, uma vez que seu pai é articulador político na comunidade em que mora. Ela está presente às discussões, seu pai lhe conta sobre os conflitos, ela o vê lutando pelo que considera correto. E ela estuda e lê muito. Além de ser incentivada a ter pensamentos próprios, a questionar as coisas. Começa a dar entrevistas sobre o direito de estudar aos 11 anos, período em que também começou a contar para a BBC, sobre a vida no Swatt, invadida pelo Talibã, através de um Diário que era publicado com um pseudônimo.

4. A cultura afegã.
Pela descrição de Malala, vê-se o ambiente de conflitos, mas também o cotidiano de uma cultura completamente diferente da nossa. As descobertas a cada página são riquíssimas, porque nos ajuda a pensar e repensar sobre como as leis são criadas, como os costumes são inventados e como e até que ponto pode ir o radicalismo em uma cultura pautada pela religião. Há muitas características que diferenciam os afegãos. Mas quando vemos pela tv sobre os conflitos, lemos como um grande bloco. Mas não é assim. É especialmente esclarecedor, ler através de Malala, sobre como o Talibã chegou ao vale em que morava e quais as consequências para seu povo.

5. A mulher afegã.
Um dos pontos mais ricos do livro, no contexto da cultura, é ver qual o espaço e o papel da mulher na cultura afegã e para o Talibã. Ler sobe a mulher afegã é refletir também sobre os direitos de todas as mulheres em qualquer outro lugar, inclusive no Brasil. É pensar que muitos direitos ainda precisam ser conquistados e que precisamos ficar atentos para que outros tantos não nos sejam retirados.

Do que fica da leitura, uma grande preocupação sobre a situação atual do Brasil em meio a essa crise, a bancada política, as manifestações, a nossa condição de cultura plural. Em muitas passagens do livro, parecia-me anúncios do que pode acontecer também aqui. Preocupante!

Mas Malala continua lutando pela educação, porque considera essa a maior arma. As palavras têm poder. O direito à educação precisa ser partilhado por todos. E isso significa uma educação crítica, que forme cidadãos pensantes e que queiram mudar o mundo. E como professora, eu acredito nessa mudança. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

MORTE DE TINTA - Cornelia Funke

Morte de Tinta - Cornelia Funke

Emocionante!
Gostei demais do encontro com essa escritora e com essa obra, a trilogia Mundo de Tinta, do qual Morte de Tinta é o terceiro livro. Fiquei preocupada de sentir-me órfã ao concluir a leitura. Mas ele não foi tecido para esse sentimento, pelo menos penso que não. Este livro foi tecido para abrir outros mundos com palavras. Que incrível isso!

Cada livro é maravilhoso na sua história, nos inúmeros conflitos, nas idas e voltas dos seus personagens fabulosos.  Sim, o Mundo de Tinta é capaz de nos prender. E nos prende em Ombra, na Floresta sem Caminhos, nos inúmeros esconderijos dos ladrões, nos castelos...

Mas o livro é também maravilhoso nas revelações sobre o mágico ofício de escrever, de criar histórias. Sobre a responsabilidade e a beleza da criação! Sobre o poder das palavras! Sobre o encantamento com esse objeto que pode ser mágico: o livro! E ainda tem o poder de transformar o próprio leitor no seu contato com o livro, no seu ato de ler. Não sou a mesma leitora depois de sair do Mundo de Tinta.

Os personagens vão sendo criados ao longo da história, e o leitor vai acompanhando isso. Existe um mundo dentro do livro, o leitor é convidado a entrar nele e viver as mais loucas e dolorosas aventuras junto com os seus personagens magníficos. E a gente ri e chora e se emociona e sofre a todo momento.

Esse terceiro livro é mais suspense, porque já sabemos que é o terceiro e que a história precisa encerrar e ficamos nos perguntando: Como? O que vai acontecer com Gaio? E com Dedo Empoeirado? Meg vai voltar para a casa de Elinor com sua biblioteca? Claro que não vou contar nenhum desses detalhes aqui. Porque para mim esta história ainda não terminou. Eu vou retornar a ela outras vezes.

E pretendo retornar para ir seguindo cuidadosamente a trilha que a autora vai deixando, sobre como escrever uma boa história. Ela vai dando pistas e contando segredos sobre o ofício de escrever. E eu ainda fico pensando como ela conseguiu juntar tantos trechos de livros para iniciar cada um dos capítulos dos três livros. Achei isso incrível! E como ela esconde a história nos títulos dos capítulos. Ela esconde nos títulos e revela nos trechos que usa como epígrafe.

Gostei muito como ela conduziu esse terceiro livro, cheio de drama, de perdas, de idas e voltas, de suspenses, de tantas mortes e como ao final, foi acalmando o leitor, trazendo-o de volta ao seu próprio mundo e preparando-o para entrar em outros mundos feitos de palavras, outros mundos de tinta.

Sim, eu chorei. Mas chorei pelos amores que se perderam (falando dos personagens), não pelo fim da história. Porque é o tipo de história que não tem fim. E quanto aos livros, vou voltar a eles. Coração de Tinta, Sangue de Tinta e Morte de Tinta me conquistaram. É um mundo fascinante, feito de personagens marcantes e inesquecíveis! E a arquitetura de sua construção é tão envolvente quanto a história.

Que maravilha é poder ter pessoas com esse poder, de criar portas entre mundos e de criar mundos com palavras!



Sobre o segundo livro - Sangue de Tinta:
https://paneiro.blogspot.com.br/2016/05/sangue-de-tinta-cornelia-funke.html

Sobre o primeiro livro - Coração de Tinta:
https://paneiro.blogspot.com.br/2013/05/prazer-em-ler-coracao-de-tinta.html

terça-feira, 5 de julho de 2016

PROJETO CIRCULANDO

Projeto Circulando - Foto de capa.

Sabe aquele livro que você leu, gostou (ou não), se emocionou, reviveu, viajou... e depois foi parar na sua estante? Alguns livros viram acervo para outras atividades. Alguns livros você pode querer guardar para reler. Mas alguns livros podem circular. Foi pensando nisso que surgiu a ideia do projeto Circulando. E também porque, ao aderir ao Desafio Literário, adquiri muitos livros infanto-juvenis de escritores contemporâneos, o acervo pessoal aumentou e fiquei pensando em desapegar, como já fiz em outras ocasiões.

Projeto Circulando - Marca oficial.



A marca do projeto foi criada pelo estudante de Design, Bosco Leite. Ele procurou dar à leitura uma ideia de diversão, cor, e o circular como um carrossel, uma brincadeira mesmo. É o que pensamos sobre a literatura infanto juvenil. Sobre como ela poderia ser apreciada, com prazer.







Bosco também produziu o material gráfico para o Projeto, que consiste em uma ficha de identificação do leitor, que vai afixada nos livros que colocarmos para circular. A ficha nos remete à ideia das antigas fichas de empréstimos, comuns nas bibliotecas antes do sistema por código de barras. Pretendemos que as pessoas deixem seus nomes registrados e as datas, construindo assim uma história da circulação dos livros. Também temos um marcador de livro.

Projeto Circulando - Material gráfico. 

Projeto Circulando -
Marcador de livros.

O marcador de livros do projeto Circulando traz a marca da UEA - Universidade do Estado do Amazonas, uma vez que o projeto surgiu durante as aulas da disciplina de Literatura Infanto Juvenil, no Curso de Licenciatura em Letras, da Escola Normal Superior. Os empréstimos já estavam acontecendo durante a disciplina. O projeto veio para ampliar e oficializar a ideia. Por isso então, apresenta também a marca que foi criada para a disciplina, pela estudante de Design Clícia Vidal, que também é a autora da minha marca pessoal, que aparece no final do marcador (a história dessas marcas dá um bom post também).

Consideramos importante esse trabalho interdisciplinar envolvendo o Design e a Educação. Transformar as ideias em conceitos perceptíveis e de fácil associação, não é uma tarefa muito simples. Mas esses profissionais conseguem. E deixam a ideia da viagem pelas folhas dos livros, muito mais atrativa visualmente. É só parar para pensar quantas vezes nos deparamos com livros que nos encantam pela capa. 

E assim o Projeto foi oficialmente lançado no dia 24 de junho de 2016, durante a aula de encerramento da disciplina. E os primeiros a levarem os livros e darem início ao Circulando, foram os próprios alunos. 

Abaixo estão as fotos dos livros e seus leitores. 




Projeto Circulando - primeiros livros a circular.

Circulando - Branca de Neve
O acadêmico Alysson Siqueira fez a doação do livro Branca de Neve, em quadrinhos e quem ficou encantada e acabou levando o livro foi a Vick Moraes. 

Circulando - Como eu era antes de você.

Circulando - Eleanor & Park



















O prof. Valdemir Oliveira, escolheu a Laura e a Silvia, para se deliciarem com essas leituras e colocarem para circular também. Laura levou Como eu era antes de você e a Silvia ficou com Eleanor & Park.








Circulando - Diário de um banana
Circulando - Fala sério, Professor!

























Para fechar a festa de lançamento do projeto, o Marcos Daniel acabou levando, Diário de um banana, para se divertir no final de semana. E a Maria Eloyse, foi curtir o Fala sério, Professor

E assim foi o abre alas do Projeto Circulando, que segue com uma página no face, onde podem ser acompanhados os novos livros e seus respectivos leitores. A ideia é que quem recebe o livro do projeto, leia e faça circular, repassando para outra pessoa e fazendo um registro para a nossa página virtual, para sabermos por onde andam os livros e o que eles estão causando nos diversos leitores.

Nosso sonho é ampliar o projeto para além dos espaços da universidade. Para tanto, aceitamos doações. É só entrar em contato. E para saber mais detalhes, podem entrar em contato através da nossa página também. 

E vamos continuar CIRCULANDO diversão, magia e encantamento com e pela leitura infanto juvenil e todas as outras leituras que nos fazem viajar, encantar e nos dão prazer.



domingo, 22 de maio de 2016

ELEANOR & PARK - Rainbow Rowell

Eleanor & Park

Ah, o primeiro amor!
A história de Eleanor & Park, nos leva de volta aos tempos de escola, as amizades e inimizades, as descobertas de mundo que vão nos acompanhar durante toda a vida e o primeiro amor. Quem lembra? Quem esquece? Do primeiro beijo, do primeiro amasso escondido, dos primeiros desejos e das primeiras noites mal dormidas pensando em alguém, do primeiro amor?

Esse livro tem esse tom. Um livro leve, gostoso de ler, que emociona e nos faz viajar para um tempo em que as descobertas tinham outro sabor. Esse sabor que vamos perdendo com os tropeços e a aceleração de tudo. Quem se dá conta, na vida adulta, do brilho dos olhos do seu amado ao vê-lo? Ou toca a sua mão como se fosse a coisa mais preciosa do mundo? Ou abraça como se não restasse mais nada a fazer?

O livro foi publicado originalmente em 2013 e esta edição em português é de 2014. Ao todo são 326 páginas. O romance se passa na segunda metade dos anos 1980. Quem viveu essa época vai reconhecer bem a trilha sonora , se for uma aficcionado por música norte-americana, pois os personagens curtem muito as bandas de rock.

Os dois personagens tem 16 anos, famílias diferentes, comportamentos diferentes, mas encontram afinidades em muitas coisas. A Eleanor lembra Isabel, de Pedro Bandeira em A Marca de Uma Lágrima. O complexo de se sentir acima do peso aceito pela sociedade. Num momento de afirmação de identidade isso pesa tanto para os adolescentes. E Park, com seus conflitos de aceitação com o pai. São tantos os conflitos nessa fase da vida, que vão deixando a escola cada vez mais sem saber como lidar com isso. Não que tenha que cuidar das situações exteriores à escola, como os problemas familiares, mas porque ainda não consegue ligar com as situações internas, hoje chamados de bullyng, por exemplo.

A autora traz isso, os conflitos pessoais de construção e reafirmação da identidade, os conflitos familiares, os conflitos na escola. O romance tem todo esse pano de fundo. Sem contar com a paisagem de parte da vida norte-americana de subúrbio. É uma forma de conhecer outra cultura e outros comportamentos. A forma de se vestir é uma das principais características apresentadas para Eleanor, como marca da sua personalidade. A roupa tem essa função. Nos vestimos para nos mostrar ao mundo ou para nos esconder dele. Dizemos o que somos pelo que vestimos. Estudos sobre a história social da moda dão conta dessas reflexões.

Mas o que me conquistou no livro não foram as reflexões racionais. Foram as emoções. O livro me arrebatou. Foi lido em um final de semana. Eu torci do começo ao fim pelo amor dos dois. Gostei como a autora terminou, nos dando chance de sonhar com uma "parte 2, o retorno de Eleanor & Park". E ao mesmo tempo em que lia, reavivava em mim a memória dos meus amores, dos encontros que me deixaram com um frio na barriga, de quem me deixou noites sem dormir e das vezes em que esse sentimento foi correspondido. A sensação é que vamos perdendo isso em meio ao acúmulo desnecessário da vida prática. Parece que hoje não há mais tempo para viver cada segundo e saborear essas descobertas.

Que bom que temos os livros para nos lembrar de tanta coisa que vamos deixando pelo meio do caminho. Como o primeiro amor e todos os amores que nos fazem sentir como se fosse a primeira vez. Aos que estão nessa fase tão linda da vida, o livro ajuda a pensar nas histórias com um toque de realidade e encantamento. Àqueles que são adultos e são românticos e ainda guardam essa chama em si, podem ler para senti-la mais forte, alimentá-la. E aos que desistiram, pensem no livro como um "tempo roubado" para pensar no amor.



29

eleanor

Quando ela viu Park no ponto de ônibus, na manhã da segunda, caiu no riso. Verdade; riu feito personagem de desenho animado... quando ficam com as bochechas vermelhas, e coraçõezinhos começam a pipocar de dentro dos ouvidos...
Foi ridículo.

park

Quando viu Eleanor vindo até ele na segunda de manhã, Park quis correr até ela e tomá-la nos braços. Como um daqueles caras das novelas a que a mãe dele assistia. Ele apoiou as mãos nas alças da mochila para se conter...
Foi meio que maravilhoso.

(página 171, depois do primeiro beijo)

sábado, 14 de maio de 2016

SANGUE DE TINTA - Cornelia Funke

Sangue de Tinta - Cornellia Funke



Foram muitas as emoções! Nem sei por onde começar a descrever. E escrevo ainda respirando o livro e com ele à minha frente, depositado quieto como um objeto mágico que o simples fato de passar a mão sobre suas páginas já evoque os sons, os cheiros, as cores e todo o universo desse Mundo de Tinta. A autora consegue isso! Depois de ler Sangue de Tinta, eu passo a mão sobre o livro e sinto-o respirar. Como se eu sentisse todas as criaturas que ele traz, pedirem para sair. Isso é mágico! Dá vontade de começar a ler tudo de novo!

O segundo livro foi tão incrível quanto o primeiro! Entrar no Mundo de Tinta foi uma experiência surreal. Eu comecei a ler para não perder de vista os personagens que me encantaram em Coração de Tinta. Mas logo estava tomada por Sangue de Tinta, o segundo livro da trilogia. E ao final, eu já me sentia habitante da Floresta Sem Caminhos.

Durante a leitura, dei-me conta da arquitetura do texto, como que diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. A autora começa cada capítulo com uma epígrafe que praticamente resume todo o capítulo e a história tem ligações cruzadas incríveis. Como se toda ela saísse aos pedacinhos de outras histórias, como se fora (e assim foi) habilmente costuradas. Percebi um incrível escritor dentro e fora do livro! Que costurava os blocos de histórias, pois os personagens passaram a habitar mundos e espaços diferentes.

O Mundo de Tinta é inspirado no mundo medieval, com seus castelos, masmorras, passagens secretas, torres, cavaleiros, florestas tão fechadas que fazem o dia se tornar noite, vielas estreitas e cheias das sobras da vida, príncipes e princesas, saltimbancos e dominadores de ervas. Mas também é totalmente mágico com fadas, homenzinhos de vidro, homens que dominam o fogo, damas brancas da morte e claro, os línguas encantadas e os criadores de palavras que criam e recriam todo o mundo.

Sangue de Tinta foi realmente arrebatador! Que riqueza de detalhes, de construção de histórias, de voltas e reviravoltas fantásticas! Um livro tecido por quem domina bem o seu ofício. Penso que todo o tempo a Cornelia Funke está falando dela mesma e da mágica e da dor que é escrever. Do quanto seus personagens vão criando vida e se tornam donos de seus próprios destinos. Do quanto é difícil e precioso encontrar a palavra certa para dar vida a cada um deles. Incrível!

Este livro destaca a importância da palavra escrita, do poder que ela tem de perpetuar histórias. Traz ainda reflexões sobre quem comanda nosso destino, se nós mesmos ou algum "tecelão da tinta" muito astuto e criativo. Fala sobre as várias faces do amor, do ódio e da vingança. Sentimentos tão humanos que estão presentes em todos os mundos, os reais e os imaginários. Fala da arte de criar livros, de encadernar e cuidar de livros, escrever histórias, ler histórias.

O Mundo de Tinta é um mundo imaginário. Mas construído a partir dos nossos imaginários tornados coletivos. Dá pra perceber aspectos medievais já vistos em livros e filmes. Seus personagens lembram muitas outras histórias. As próprias epígrafes são retiradas dos mais diversos livros e cuidadosamente tecidas no começo de cada um dos capítulos, ao todo são 217 nos três livros. Uma pesquisa incansável!

Lembro que quando terminei de ler Coração de Tinta, o primeiro da trilogia, eu fiquei também assim, sobressaltada e corri para pegar Sangue de Tinta, para que os personagens e suas histórias tão incríveis não escapassem das minhas mãos. E agora estou indo para o terceiro e último livro, Morte de Tinta. O sofrimento será maior. Praticar o desapego depois desse vai doer muito mais. É a primeira trilogia que leio! Uma experiência nova e fantástica!

No final eu carreguei o livro como se fosse o corpo de Dedo Empoeirado que Farid quer trazer de volta à vida. Eu já não podia mais segurar o livro como seguro qualquer outro objeto. Mesmo que tenha terminado de ler, não quero que ele morra. Quero guardá-lo para lê-lo outras vezes e assim, trazer de volta todas as suas vidas e histórias.

E as fadas ainda sussurram quando eu passo a mão sobre o livro... acabei de ouvir!


Sobre o primeiro livro - Coração de Tinta:
https://paneiro.blogspot.com.br/2013/05/prazer-em-ler-coracao-de-tinta.html

domingo, 8 de maio de 2016

MINHA MÃE, UMA COLORISTA - Sobre a paciência para colorir livros de colorir


Livros de colorir

Quem lembra da chegada às livrarias de uma infinidade de livros de colorir? Eles começaram com o Jardim Secreto, depois Floresta Encantada... E foram chegando muitos outros. Tornou-se um sucesso de vendas! As livrarias exibiam os livros à entrada, junto com lápis de cor. Um atrativo para as crianças e para quem buscava terapia.

Comprei o Jardim Secreto porque achei muito bonito! Comecei a pintar a contra-capa, depois pintei a primeira folha, com meu nome. E desisti de pintar, depois de ter pintado apenas duas páginas. Como era cansativo, pra mim. Definitivamente eu não tinha paciência.

Resolvi levar para minha irmã e minha sobrinha pintarem uma página. E a minha mãe também se interessou. Estranhamos essa manifestação, porque mami não tinha passado pela experiência de desenhar ou colorir nada. Não frequentou escola, nunca a vi com lápis de cor nas mãos. E aí deu-se a mágica! Enquanto as outras pintaram um desenho, mami coloriu todo o livro. Descobriu uma nova habilidade.

Página dupla do livro Jardim Secreto, Johanna Basford.


Livros de colorir precisam de cores igualmente diferentes.
 Aos poucos, com a prática, ela foi aprendendo a selecionar os lápis de cor. Diferenciando os lápis que deslizam melhor nos diferentes tipos de papel. Aprimorando as pontas para os detalhes mais precisos.

Página dupla do livro Floresta Encantada, Johanna Basford.
 Depois de terminar o primeiro livro, comprei em seguida o Floresta Encantada, e ela foi pintando. E depois outro, e mais outro. Fomos à livraria escolher novos livro de colorir. Comprei lápis de cor e o potinho para guardar os lápis. Depois dos afazeres domésticos, mami sentava e ia pintar. Colocava os óculos, abria o livro, ia pegando os lápis e dando cores às formas desenhadas.

Livro de colorir  
 Os desenhos de árvores, flores, pássaros, borboletas e outros animais ela ficava lembrando das cores do seu mundo de infância, vivido no interior do Acre, em uma cidadezinha chamada Tarauacá. Várias vezes comentou sobre a cor das penas dos pássaros e a diferença entre os verdes das árvores. Uma percepção que não se perdeu na memória de tempos distantes.

O livro Inspiração Amazônia, vem com folhas destacáveis.


Livros de colorir - página dupla do livro Aves do Paraíso, Editora Alaúde.
 Quando questionada sobre como escolhe suas cores ela simplesmente responde: Eu vou pegando e vou pintando! E assim ela passa horas do seu dia. E diz que nem vê o tempo passar. Consegue pintar um desenho extremamente complexo e detalhado, sem perder os espaços, em apenas um dia. Fica contente ao ver seu trabalho concluído.


Página do livro Philia para colorir, ilustrações de Thais Linhares.

Mami em seu ofício de colorir. 
Minha mãe tem 65 anos e adora colorir livros de colorir! Até a data desta postagem ela já coloriu 7 livros e está concluindo mais um.

Página dupla do livro Floresta Encantada, Johanna Basford.
Esse é o meu preferido! Um dos dragões em página dupla. Ela pintou os dois. Sem esquecer uma folha, uma escama, um detalhe. Uma  paciência e uma habilidade que eu não tenho. Minha mãe descobriu esse prazer nos livros de colorir. E que venham outros livros e outros prazeres! E muitos anos coloridos pela frente!