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sábado, 13 de outubro de 2012

À Mestra Lucifátima

A 5ª série é um momento de transição roubado, porque saimos da fase da manhã inteira com a "tia", para encarar a cada 45minutos, um professor diferente. E eu tinha um caderno para cada disciplina (mania de organização). Lembro que o primeiro livro que eu realmente gostei foi o livro de Português. Muito mais pelos poemas do que pelos exercícios. E dessa fase escolar, a professora que mais marcou foi a professora de Pôrtuguês, Lucifátima. Uma nordestina forte.
Quando retomo a minha trajetória de leitora, lembro dela. E quando penso nas minhas estratégias em sala de aula, tenho muito dela também. A cada bimestre, ela presenteava o aluno que tinha tirado a melhor nota, com um livro. Esse ano da 5ª série, eu ganhei 2 livros e 1 relicário.

Lucifátima era rigorosa na escrita e na leitura, e na gramática, que confundia a gente. Hoje consigo perceber que tivemos uma educação boa, numa escola pública da zona leste de Manaus, nesse período. Muito pelo esforço do professor (algumas coisas parecem que não mudam). E eu lembro que foi nessa fase que eu comecei a querer ler todos os livros do mundo. Na 5ª e 6ª série, tínhamos uma espécie de "clubinho da leitura", onde os colegas que gostavam de ler, trocavam livros. Não tínhamos dinheiro para comprar muitos livros então, quem comprava emprestava para outra pessoa e assim, líamos muito.

Eu já trabalhava e conseguia comprar um livro por mês. Na época, li vários da série Vaga-Lume. Porque o primeiro livro que ganhei da professora Lucifátima, no 2º bimestre da 5ª série, foi Tonico e Carniça, de José Rezende Filho. Contava a história de dois amigos. Foi o primeiro livro que li inteiro. Era da Série Vaga-Lume. Depois, fui buscando os outros... Marcos Rey, Luiz Puntel, foram meus autores preferidos nessa fase. E foi a fase em que comecei a escrever versos. O primeiro poema que fiz foi para a professora Lucifátima e tinha 17 estrofes. Não lembro de nenhuma, não fiquei com o poema. Entreguei a ela numa folha de papel almaço com alguns desenhos de flores.

O segundo livro que ganhei, no 3º bimestre foi O Guarda-Noturno, ainda guardo esse livro comigo, com a assinatura da professora: "Carinhosamente, Lucifátima." Foi daí que copiei o "carinhosamente" que uso para tudo o que escrevo aos meus amigos. No 4º bimestre, ganhei um relicário. Que fantástico isso! No último bimestre, final do ano, férias... e ela não me deu um livro... me deu um relicário, para escrever. Eu comecei a escrever e não parei mais.

No ano seguinte, a professora Lucifátima não estava mais na escola, havia voltado para a sua cidade (que eu nunca soube qual era). Como lembrança dela, ficou o livro O Guarda-Noturno, porque Tonico e Carniça eu emprestei e não sei onde foi parar. O relicário, eu o perdi no meio das minhas mudanças. Mas algo que nunca perdi foi a vontade de ler e escrever. Espero que a professora Lucifátima tenha tido mais sucesso nos caminhos outros que escolheu. Quanto a mim, se é sucesso o que tenho, ela faz parte dessa conquista.

Se ela pudesse ler esse texto, eu terminaria dizendo:

Se os verbos me confundiam e a gramática era um desafio, a leitura foi me ajudando a compreender esse universo da escrita. Não sei quantos da turma se tornaram leitores. Mas a partir do livro que ela me pôs nas mãos eu, de tanto ler, me tornei professora!

Carinhosamente,

Evany

*Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos - Shakespeare*

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