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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Galvez, Imperador do Acre - de Márcio Souza

Capa do livro Galvez,  Imperador do Acre
A literatura desempenha papeis para além do prazer da leitura. Mesmo sabendo que um livro não deve ser pensado didaticamente a não ser para saborear um universo próprio e fantástico que o autor propõe. No entanto, quando lemos romances de época, como este do Márcio Souza que trata do período áureo da borracha no norte do Brasil, as percepções se abrem para pensar criticamente sobre esse período. Ele passeia pelas cidades de Belém, Manaus e chega até o Acre. É uma deliciosa e divertida aventura!

Mas ao longo do texto alguns trechos são tão fortes que torna a viagem bem reflexiva. Anotei alguns e separei por temas:

OS PRAZERES
"Minhas viagens e minhas fugas me alimentavam. O rosto de Cira, arfando de curiosidade, também. Eu estava apaixonado pela reserva de impetuosidade feminina que ela tinha, numa terra de mulheres caladas que não soltavam nem gemido na cama." pág.30

"Eu esperava não mais que algumas boas surpresas noturnas. As cidades de fronteira sempre são pródigas de prazeres interessantes. Eu já me acostumara ao gosto pelo supérfluo que os senhores do látex cultivavam e aprendera a viver na monotonia." pág.113.

O DINHEIRO
"Mas em Belém o dinheiro não era metafísico, estava ali e eu podia descobrir o seu entorno no imenso bolo cor-de-rosa, nas travessas de prata e nas jóias que enfeitavam o colo de qualquer dama. O corpo do dinheiro andava despido e guiava a criada que servia ponche. Eu podia até dizer que o dinheiro era ruminado em cada palavra. Aqueles filhos do dinheiro recente e fácil, habitantes de uma terra primitiva, não conseguiam escapar da ostentação e da nudez do poder econômico." pág.34

"Os comerciantes do látex sabiam que a Justiça não passava de uma licença poética do século XVIII. O Direito precisava saber onde pisar no Amazonas." pág.120

A MISÉRIA
"Aprendi que o novo-rico só é desagradável porque amplia os detalhes da miséria." pág.34

"Minhas audiências com gente do povo eram sempre fracassadas. Eram pessoas que eu nunca tinha tido contato e logo descobri que os miseráveis movem-se num mundo anexo e com regras próprias. A miséria também forma a sua confraria." pág.182 

A PAISAGEM
"Estou prisioneiro de uma paisagem. A praia era a terra de ninguém, e comecei a pensar no desafio que aquela paisagem devia representar para a literatura. Ora vejam como eu era civilizado! Eu estava abandonado na selva e pensava em problemas literários. Problemas que, por sinal, ainda não consegui superar. Sei apenas que a preocupação com a natureza elimina a personagem humana. E a paisagem amazônica é tão complicada em seus detalhes que logo somos induzidos a vitimá-la com alguns adjetivos sonoros, abatendo o real em sua grandeza." pág.78

"Alguém me tinha dito em Belém que a gente fica mudo na frente da paisagem amazônica. Não é verdade. Um homem fica humilhado e há um sabor deslumbrante e decadente de pré-história. Sabor que me trazia irritação. Como filho do mar de Cádiz, eu já havia experimentado esse esmagamento natural. Mas o mar é clássico e sem minúcias." pág.79

O TEMPO
"Quanto tempo vive realmente um homem? Pela média um homem vive 613.200 horas em sua existência. Mas todas essas horas foram realmente vividas? Durante o sono não se vive e somente isso já nos leva quase a metade da existência. E descontemos também as atividades rotineiras e quando sobrará? Contudo, o homem vive os momentos em que ele realmente participa completo, e neste sentido sua via é fugaz." pág.157

A ILUSÃO
"A cerimônia de minha coroação, já no Palácio delirantemente decorado com uma pompa até então ignorada naquela latitude, transcorreu com intensa comoção de grandeza. Os leitores me perdoem o estilo grandiloquente, mas toda coroação é assim. Blangis, mestre na improvisação de cenários em papier-mâche, elaborou um deslumbrante salão de audiência com todos os detalhes rococós de um antigo cenário para a ópera Dom Giovani. Os dourados, os falsos mármores, as pinturas românticas de cores vagas, os cortinados, impressionaram os convidados, velhos batalhadores que haviam enriquecido na selva, quase analfabetos e que agora se intimidavam com a magia daquele francês milagroso, capaz de transformar em poucos dias um depósito infecto de borracha num plástico de sonho." pág.169

"[Joana] Gostava de conhecer os segredos e aspirações daquela gente expressas nas cartas que escreviam para os parentes. Comovia-se com as deslavadas mentiras que a maioria dos cearenses escrevia. Meu povo evitava que o fracasso de sua miséria chegasse ao lar distante, reafirmando a doce ilusão da fortuna para o que haviam ficado." pág.184




Imagem da contracapa do livro que ilustra a ideia de "Teatro no meio da selva".

Sem dúvida ler romances ajuda e entender melhor nossa cultura e nosso tempo e a nós mesmos. Viva a literatura!

Referência:
SOUZA, Márcio. Galvez, Imperador do Acre. São Paulo: Marco Zero, 1992.

3 comentários:

  1. Olá, tenho uma peça para fazer sobre esse livro e queria saber os principais personagens além do Galvez, agradeço se puder ajudar!

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    1. Olá! O romance tem muitos personagens, mas acredito que os principais são: Galvez, Cira, Joana, Justine L´Amour, Françoise Blangis, Sir Henry Lust e Thaumaturgo Vaez. Mas isso vai depender muito do foco que você quer dar à sua peça. Então, nada melhor do que ler a obra várias vezes e escolher o seu caminho. Boa sorte!

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  2. O meu augúrio, é receber, algumas obras do Escritor "Márcio Souza" em forma de E-Book. Pois, para mim, depois do meus saudoso pai, seu amigo e colega, o Escritor "Arthur Engrácio". Eu admiro muito você, em seus trabalhos com a literatura. Um forte abraço, da sua fã, Arline Silva. (Line Engrácio).

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