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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Entrevista com Lucyanne Afonso, MSc. UFAM


Lucyanne Afonso

Professora do Departamento de Artes, no curso de Música da UFAM e Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia

Lucyanne Afonso

“A dissertação não é só minha, é da sociedade, é um documento oficial, para quem quiser conhecer, pesquisar, continuar, aprofundar, sobre nossa música amazonense.”


Esta é a nossa primeira entrevista da seção, que traz Lucyanne Afonso, professora e pesquisadora da UFAM. Lucyanne nasceu em Manaus, estudou Educação Artística na UFAM, cursou  especialização em Musicoterapia e em novembro de 2012 defendeu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, UFAM. Nessa conversa Lucyanne nos conta um pouco dessa trajetória de amor, pesquisa e dedicação à música.



Paneiro - Lucyanne, como começou esse interesse pela música?
Lucyanne - Desde criança sempre ouvi muita música, meu pai todos os domingos escutava aqueles mesmos vinis do Jessé, do Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Jair Rodrigues, ele adorava também ouvir Pinduca e Teixeira de Manaus. Além de ir para casa do avô paterno onde toda a família se reunia, era aquela bagunça e tinha um piano que era da minha tia. Assim fui construindo meu gosto musical, até hoje ainda guardo essas pérolas musicais do passado, comprei até uma rádio eletrola para escutar novamente. Mas o interesse maior foi na hora da escolha do curso para prestar o vestibular da Ufam, pois fazendo Educação Artística poderia ser a diretora do Teatro Amazonas, pensar alto é importante, porque me motiva e me instiga a enfrentar os desafios. Foi na Universidade, no Departamento de Artes que aprendi a arte da música, não cheguei a ser a Diretora do Teatro Amazonas (risos), mas estou realizada pelas minhas conquistas como profissional, em retornar ao Departamento, como professora. É assim que quero ser lembrada e é assim que quero colaborar com a educação musical e com a pesquisa em música em nosso Estado.

Paneiro – Então conta um pouco como é trabalhar no Departamento de Artes da UFAM, com profissionais que foram seus professores.
Lucyanne - Gratificante, prazeroso, desafiador e de muita responsabilidade. É gratificante porque são pessoas que fizeram parte de minha formação e agora são colegas de trabalho, amigos e uma grande família, temos discursos diferentes e iguais, mas tudo em benefício da educação dos alunos e do desenvolvimento dos cursos. É prazeroso porque o ambiente é descontraído.
É desafiador porque todo momento aprende em relação a ser um professor universitário, em ser espelho para os alunos e você próprio se espelhar nos seus mestres, a aprender administrar um curso, coordenar projetos. É um desafio pessoal que você se propõe para o resto da vida. E este constante desafio te trás responsabilidades, se torna uma referência entre seus pares e futuramente poder exercer o mesmo papel para outros colegas que virão compor o quadro de professores do Departamento e de continuar com o trabalho que foi sendo construído pelos antecessores. É um cânone que vai sendo construído.

Paneiro – E além da UFAM você desenvolve outros projetos ou atividades?
Lucyanne - Apesar de ser Musicoterapeuta também, não exerço esta profissão, pois tenho Dedicação Exclusiva na UFAM e a Universidade te dá possibilidades de realizar projetos e atividades para atender a sociedade e de poder ter uma realização pessoal. Uma das realizações é estar como colunista do Jornal do Commercio, na Coluna Maraka (nome dado por mim) que significa Música’ em tupi, uma coluna que propõe falar sobre música, enfatizando a música em Manaus em relação a pesquisas, histórias musicais, produção musical, tendo aos poucos um senso crítico sobre o cenário da música atual em nossa cidade que é para onde quero encaminhar a escrita, ou seja, tem um perfil informativo, científico e educativo.


Paneiro – Você defendeu sua pesquisa de mestrado recentemente, falando sobre a vida musical em Manaus nos anos 1960, como surgiu a ideia do projeto?
Lucyanne - Surgiu em uma conversa no bar Galvez com o prof. Adelson Santos e com a soprano Mirian Abad. Falávamos sobre a música amazonense: da situação de alguns artistas, da produção musical, a realização profissional como músico, as dificuldades encontradas. E pedi ao prof. Adelson que falasse como começou sua carreira musical. Foi quando ele relatou que iniciou na década de 60: era um jovem que estava aprendendo violão ao som da Bossa Nova e da Jovem Guarda. A partir disso, fui elaborando a temática, organizando o pensamento, juntando os dados, a história e os fatos. Assim surgiu dissertar sobre a música em Manaus na década de 60, uma década de importantes fatos políticos como a política da Boa Vizinhança entre os EUA e os países da América Latina em conseqüência da Guerra Fria, o início da Ditadura Militar no Brasil, os movimentos musicais cada um com uma ideologia e estética musical diferente, além da discussão da internacionalização da Amazônia e o surgimento da Zona Franca de Manaus. Diante de todos estes fatos, como foi a vida musical na cidade de Manaus na década de 1960? Foi o principal questionamento para delinear a pesquisa que finalizou com o título AS INTER-RELAÇÕES SOCIOCULTURAIS NA VIDA MUSICAL EM MANAUS NA DÉCADA DE 60, ou seja, uma discussão sobre a indústria cultural (gravadoras e loja de discos), as rádios e o cinema, os clubes da cidade e o Festival de Dublagem.

Material encontrado por Lucyanne durante suas pesquisas em periódicos


Paneiro - Você poderia dizer quais os pontos mais difíceis e os mais encantadores no processo da sua pesquisa?
Lucyanne - Melhor começar pelos difíceis, mas os ruins já esqueci: a pesquisa é algo desafiador, a comunidade científica é mais ainda, transformar todo o material que tinha (entrevistas orais, documentos de jornais, vídeo) em científico é um trabalho mental e psíquico muito desgastante e  constantemente te põe em provas. É como criar um mosaico e cada peça, mesmo que seja aquela pequena, é importante para construção do pensamento. Você dorme, acorda, come, viaja, pensando na tua pesquisa. Tive muitos sonhos como se estivesse escrevendo. Uma das dificuldades foi encontrar os periódicos da época, pois a Biblioteca Pública estava fechada, então tive que me dirigir em alguns locais para consegui-los; as rádios não possuíam mais nenhum documento de programação musical do período; o teu referencial teórico de uma hora para outra pode mudar, pois o material que consegue na pesquisa de campo pode te mostrar outro cenário. Outros pontos difíceis é que a sua vida social fica um pouco de lado, tem que ler bastante e em pouco tempo, então qualquer tempo é precioso, os amigos entendem. A família é a que mais tem paciência, pois sabe das dificuldades que tive para conseguir entrar numa Pós-Graduação e da importância que esta formação vai ter no futuro.
Os mais encantadores é quando vai encontrando material precioso, como por exemplo, o vídeo do Festival de Dublagem de 1966, sem áudio, mas rico em imagens; quando a pesquisa não é mais um projeto com objetivos, justificativa, metodologias, cronogramas e referencial, e vai se transformando em capítulos, tua escrita muda, teu pensamento é mais rápido e o resultado é satisfatório. Mais satisfatório é ouvir a ata final de aprovação, você tira uma tonelada das tuas costas e sabe que o que escreveu, o tempo que levou, as coisas que deixou de fazer valeu a pena, pois deixou um legado para a sociedade, para os futuros estudos e pesquisas, contou uma parte da história musical da cidade. A dissertação não é só minha, é da sociedade, é um documento oficial, para quem quiser conhecer, pesquisar, continuar, aprofundar, sobre nossa música amazonense.

Paneiro – E sobre essa continuidade, você pensa em continuar com a pesquisa, desenvolver projetos de extensão na universidade, publicar? Quais os planos agora?
Lucyanne – Agora é continuar... tem muito tema a pesquisar. Estamos iniciando um projeto de extensão no Departamento de Artes chamado “ Mapa Cultural” um projeto que tem como objetivo catalogar documentos musicais (vídeo, periódicos, fotografia, partituras, entrevistas, etc.) para compor um banco de dados que serão posteriormente objetos de pesquisa dos universitários, dos alunos do ensino médio, de outra universidade, enfim, para quem tiver interesse nesta área. Mas a intenção maior é criar o Museu da Música Virtual do Amazonas, é um projeto grande, que não vai ser feito em um ano, vai depender de investimentos, de material  humano e que tem direcionamentos para o doutorado, na área que pretendo fazer de Arquivologia musical. Quanto a publicações, anualmente participo do Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música - ANPPOM, um congresso que reune pesquisas de todas as linguagens musicais, professores e pesquisadores das Universidades do Brasil, uma forma de divulgar sobre a história da nossa música e fazer parte do mosaico da música popular brasileira, que é uma só. Estou aguardando a publicação de um artigo aprovado na Revista Somanlu do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia, da Ufam, que tem como tema: "Panorama econômico, político e cultural da cidade de Manaus na década de 1960", isto é o início de uma longa jornada acadêmica e tudo será feito para a construção da nossa história musical.

Paneiro - O que a Lucyanne gosta de fazer nas suas horas de folga?
Lucyanne - Ir ao cinema, a sorveteria, pegar a estrada, alimentar o ócio de vez em quando é bom, pois é quando surgem as idéias, curtir a família, estar com os amigos na praça, fazer alguma festa, tirar fotografia, assim...coisas simples nos fazem bem....

Para pensar rápido...
1. Um livro: inteligência emocional, Daniel Gulemann
2. Uma música: É preciso saber viver
3. Um filme: Coração valente
4. Um lugar: minha casa


Agradecemos a professora e pesquisadora Lucyanne Afonso pela entrevista e desejamos muito sucesso nos próximos projetos. Esperamos poder divulgá-los em breve! A pesquisa está disponível no banco de dados da Biblioteca Setorial do Instituto de Ciências Humanas e Letras - ICHL, no Campus da Universidade do Amazonas.

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