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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Por que eu amo os espaços públicos?

Plaza de Mayo, centro de Buenos Aires, em frente à Casa Rosada
Durante uma viagem para participar do IV Congresso Latinoamericano de Enseñanza en Diseño, na Universidade de Palermo, em Buenos Aires - Argentina, conversando com dois amigos que também foram participar e apresentar trabalhos, surgiu a ideia de escrever sobre esse tema: 'Por que eu amo...?'. Alexandre Oliveira veio com essa ideia e logo começamos, Valdemir Oliveira e eu, a listar algumas coisas que poderiam se tornar textos. Pensei em vários pontos, até que na segunda metade da viagem de volta para casa, procurando aproveitar as 3 horas e 40 minutos de avião de São Paulo até Manaus, comecei a escrever esse texto. Ele traz um pouco das discussões sobre memória interna e memória externa, a mediatização tecnológica, as percepções dos espaços visitados e claro, as conversas riquíssimas com Alexandre e Valdemir. Então, segue esse primeiro ensaio, praticamente um esboço, pois que as reflexões abortadas aqui precisam ser gestadas com mais carinho. Mas, segue como impulso, sabendo que muitos outros virão com esse 'dispositivo temático' POR QUE EU AMO...?


Por que eu amo ESPAÇOS PÚBLICOS?

Quando se visita uma cidade hoje, é comum a pressa que se alia à possibilidade do registro para ver depois, com mais calma. O caminhar da descoberta é corrido. O olhar busca o monumental, o conjunto ou o que se diferencia dele. Mas é o olhar que rege a exploração. Estar nos espaços só faz sentido se fotografado no espaço, para uma memória externa possível de compartilhamento com outras pessoas. A memória do lugar não se constrói mais no tempo de se estar no lugar. Se constrói fora, no ângulo que favorece uma parte eleita de um todo que o olhar viu mas não transformou em memória interna, porque não houve tempo. Transformou-se em fotografia. Não há mais a fruição do espaço no espaço, senão naquele recorte feito pela fotografia.

Ao se visitar um espaço público, o visitante raro se permite parar, sentar e ficar. Respirar o ar daquele espaço, perceber os diferentes sons e cheiros. Olhar o entorno com calma. A disposição do traçado, para onde se abre, para onde se fecha. Observar as pessoas que passam por ele, como se comportam, o que fazem, como usam os espaços, quem é da cidade e quem está de passagem. Que trajeto se fez até ali. Para onde se vai depois. Que memórias podem ser construídas com e a partir desses elementos, do momento, das sensações. Parar e sentir, muito mais que parar e pensar. Parar e ficar. Parar e viver. Parar para ter memória para contar histórias, mesmo se a imagem faltar. Parar para ser e estar no lugar, mais que passar pelo espaço.

Encontra-se aí a diferença apontada em um texto que li há algum tempo, que falava sobre a diferença entre viajante e turista. O viajante se propõe a caminhar e descobrir a cidade sem pressa. O turista vai correndo para fotografar pontos específicos, a maior quantidade possível. O álbum de fotos da viagem é o troféu final da maratona. Nesse sentido e nesse espaço-tempo contemporâneo, as cidades se oferecem como imagem-cenário, postal para registrar e levar. Importa a maquiagem para a velocidade da apreensão. Porque não há tempo para ver a cidade de ressaca depois do espetáculo, seus cheiros, sujos e rugas. Para que? Quem quer ver? Quem passa quer ver o belo e ser acolhido por essa beleza, pois está buscando também uma fuga do seu mundo, do trabalho, dos problemas. A cidade-postal então é essa que pode ser levada de lembrança, materializando de alguma forma a esperança e o desejo de um mundo melhor, o Paraíso Perdido. Quem passa e quem vive no lugar, bebe dessa mesma esperança. Mas para quem vive no lugar, a cidade amanhecida e cheia de rugas é uma realidade constante e conflitante. Por vezes o postal não faz sentido quando não há espaço para colocá-lo. Quando tudo o mais é ruidoso e feio, não combina. No entanto, se esse espaço estético falta, toda a cidade sente e chora. Porque também é preciso um espaço para o olhar, para o sonhar, para o experimentar o paraíso perdido. A magia dos espaços públicos se encontra nessas percepções, vivências, reflexões. É como um termômetro do que a cidade tem a oferecer, aos seus e aos outros.

É um retrato do que a cidade é e de como quer ser vista por quem passa. Sem espaços públicos a cidade seria uma prisão. Os espaços públicos dão o tom da cidade. Mas para perceber isso é necessário permanecer no espaço. Para que as descobertas aconteçam. Cada espaço tem uma identidade, um ritmo, um humor. Captar isso é se permitir sentir além do olhar. Cada espaço tem uma energia. Descobrir isso é descobrir nosso tempo interior, fora do relógio, fora da agenda. Parar para sentir e construir memórias internas, no coração, na alma. Costurar memórias internas pode nos possibilitar mais equilíbrio e tranquilidade, porque não vai se perder na memória digital. Espaço para ficar, sentir, viver. Por isso eu amo os espaços públicos. É por onde a cidade respira e sorri... e as pessoas também. 

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