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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Ser professor ou vender pipoca?

Pipoqueira Retrô - Nostalgia
Nota 1
Há algum tempo, passamos, eu e minha irmã, em uma loja no shopping e nos deparamos com alguns objetos graciosos e com tom de tempos antigos, saudosos, lembrando som de carrossel... eram pipoqueiras e máquinas de algodão doce retrô. O tamanho, as cores, a forma, tudo muito atrativo e o preço e as facilidades de pagamento, também. Pensamos em comprar para as nossas festas de família que já estão merecendo superprodução e planejamento com um ano de antecedência. Viajamos na montagem do evento, e em todos os detalhes e depois fomos embora cuidar da vida prática. Não compramos nada. Mas a pipoqueira ficou na memória.

Nota 2
Há algum tempo minha mãe comentou em casa sobre um antigo colega de trabalho dela que, depois de aposentado, comprou um carrinho de pipoca e começou a vender pipoca na frente do Posto de Saúde. Segundo ela, ele fez a casa dele, comprou outras, aluga as casas e continua investindo em imóveis, com o dinheiro da pipoca. Quando passo pela rua, no bairro em que moro, sempre encontro alguns senhores vendendo pipoca nos seus carrinhos. Eles estão geralmente conversando com alguém, sempre alegres e sorridentes. Usam camisas de meia, ou de botão, bermudas ou calça e uma sandália... estão sempre bem à vontade para passar horas no eu ofício.

Nota 3
Há algum tempo (desde 1999), eu venho pesquisando e desenvolvendo atividades para professores, como oficinas e encontros de formação na área de musicalização, mediação de leitura e contação de história. Essa experiência tem me oportunizado conhecer mais o contexto da educação em Manaus a partir da visão e da vivência dos sujeitos da linha de frente desse processo: os professores e professoras. Junto com os professores, tenho tido contato com pedagogos, diretores, bibliotecários (os raros que conheci em bibliotecas escolares) e todos os funcionários da escola, como as merendeiras e os porteiros. Algumas experiências foram renovadoras, no sentido de me fazer sentir que estou no caminho certo e que as pesquisas e as atividades vivenciadas são ingredientes que podem sim, melhorar a prática pedagógica, e por conseguinte, a formação de crianças e adolescentes, contribuindo em uma escala maior para a melhoria da educação e da sociedade. Isso é maravilhoso! Pensar que nossas ações pontuais podem ter tais ressonâncias. E elas tem ressonâncias para o bem e para o mal. Cada ação nossa no mundo tem suas consequências, ao mesmo tempo em que é uma resposta a alguma coisa ou alguém.

Mas nem tudo são flores nesse mundo da educação. Há momentos em que o cenário que se apresenta é tão desanimador que é preciso força para não sair gritando que o mundo é cruel. O que dizer a uma professora que pergunta: "Em que horário eu vou ler, se trabalho os três turnos para manter meus filhos?". Como incentivar o professor a montar sua biblioteca particular, se o jornal de R$ 3,00 é caro para a realidade prática do seu dia-a-dia? Que palavras de motivação é possível expressar, quando um profissional formado em Artes está na escola lecionando História e Geografia, porque a vaga de Artes já estava ocupada por outro professor de outra disciplina que completa carga horária com Artes e a mudança "bagunçaria" todo o planejamento da Secretaria de Educação?  O que pensar do futuro de uma Sala de Leitura, em uma escola sem biblioteca e sem bibliotecário, que fica aberta apenas quando uma auxiliar de serviços gerais com muita simpatia e boa vontade tem tempo para ficar lá? E o que pensar do futuro da leitura nesta mesma escola, quando esta pessoa, que gosta de ler e pode ser uma importante parceira na mediação da leitura, é impedida de participar dos encontros de formação porque tem muito chão pra limpar?

Essas são algumas das experiências que partilhamos nesses encontros de formação de professores. Mesmo que não queiramos transformá-lo em grupo de terapia, não há como fugir dessa necessidade de externalizar essa situação vexatória em que se encontra a educação nesse país. E é nesses momentos que percebemos que o problema é mais complexo do que imagina a nossa vã filosofia. Os sonhos morrem na realidade da sala de aula: fato! Os sonhos de alunos e professores... os sonhos de um país de primeiro mundo e não apenas exportador de recursos naturais. Diante disso, por alguns momento eu me pergunto: Essa angústia vale a pena? Não seria melhor a tranquilidade de vender pipoca? Pode parecer zombaria e exagero. Mas o caminho de reflexão que as gerações hoje são levadas a fazer. Se o professor faz especialização, aumenta R$ 100,00 no salário. Se ele faz mestrado R$ 200,00. Não sei quanto aumenta com o doutorado e desconheço algum doutor que trabalhe em escola pública em Manaus. Nem vou fazer a forca e colocar aqui os valores dos salários dos nossos políticos porque aí é quando desistimos de vez. Mas é o que temos. São as inversões que permanecem e fazem com que o Brasil (esse lindo!) continue num reino de fantasia e sua gente, se mantendo do jeito que dá, no famoso "jeitinho brasileiro".

Vou parar de fazer oficinas para professores, porque eles são sempre mais fortes do que eu quando me perguntam: "Que tempo eu terei para ler, se trabalho os três horários?"... e eu não sei como responder. Porque está tudo errado. Queria muito que Prefeitos, Governadores, Ministros, Presidente me ajudassem a responder essa questão... porque está difícil para os universitários.

Evany Nascimento

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