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segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Sermão da Selva - Max Carphentier

O SERMÃO DA SELVA

IV

Bem-aventurados os que sustam o avanço dos desertos,
domando a areia e apascentando as dunas
com a flauta inumerável de árvores urgentes
que frutificam em paz e as cidades protegem
e mitigam de chuva os caminhos de fogo.
Bem-aventurados os que socorrem a fauna sacrificada
e salvam da extinção cantos indispensáveis,
belos saltos de cor, imponências felinas
e todas as claras provisões de ternura animal
que a magnífica fonte espalhara na selva.

Bem-aventuradas as mãos que multiplicam o verde e os verdes
movimentos do caule erguendo-se da terra,
e os longos círculos de sonho em que a flor se transfigura,
em que o fruto se entrega e em que as folhas resistem
na úmida e dadivosa sinergia.
Bem-aventurados os que cultivam e os que repartem as lendas,
filhas da solidão dos remos peregrinos,
das sombras que de noite andam de medo em medo
as redes embalando à luz das lamparinas.
Porque lenda é mensagem, e a selva sempre soube
que, além da alma e matéria, o homem é sonho.
Bem-aventurados todos os que antes da revelação eletrônica
já se comunicavam com as plantas, já as sentiam
e com elas partilhavam da luz e da emoção,
e as respeitam assim nessa comunidade da selva.

Bem-aventurados os que em lei, verso, vontade,
na retorta, na prece e na palavra
a selva defenderem e seus mistérios lerem
e fundarem a sua paz na paz da selva.
Porque o Reino será desses, daqueles que cumprirem
o destino de Deus neste transido

 mundo que nos suporta enquanto o temos.




Max Carphentier
Fonte: http://catadordepapeis.blogspot.com.br/2010/12/academia-amazonense-de-letras-iv.html



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MAX CARPHENTIER

Max Carphentier Luiz da Costa nasceu em Manaus, no dia 29 de abril de 1945. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Surgiu para a literatura na década de 70, vinculando-se ao movimento Madrugada. É membro da Academia Amazonense de Letras. Obra poética: Quarta esfera, 1975, O sermão da selva, 1979, Orfeu de Nazareno, 1983, Tiara do verde amor, 1988, Nossa Senhora de Manaus, 1995, Celebração da vida - missa planetária, 2003.

Referência: Poesia e Poetas do Amazonas. Livro organizado por Tenório Telles e Marcos Frederico Krüger. Manaus: Editora Valer, 2006.

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