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quinta-feira, 18 de abril de 2013

A arte como patrimônio coletivo - Aula - Material didático

Teatro Amazonas, Centro Histórico de Manaus



Uma das minhas grandes paixões ao iniciar o curso de Educação Artística foi o encantamento com a História da Arte. Não com as teorias da arte ou com os estilos, pelo menos não no início, o encantamento primeiro foi descobrir que um objeto pode guardar um mundo de possibilidades de significações. Olhar para os objetos passou a ser uma aventura cheia de descobertas. Um conhecimento despertado que se podia ampliar com a pesquisa, com a apreciação, com a reflexão, com a troca de ideias. O objeto conta histórias. A metodologia da História da Arte foi o que me acompanhou durante todo o processo de pesquisa com as esculturas do Centro Histórico de Manaus, desde 1997. Comecei a tratar as esculturas como objetos que podiam ser medidos, observados, detalhados, mas também como portadores de memória e significados simbólicos. Esse passou a ser o princípio da pesquisa sobre Patrimônio, pois os objetos artísticos tem valor histórico e artístico. No campo do design, que trabalha com a relação do homem com as coisas, me senti à vontade para também fazer pesquisas.
Então nesta vivência de alguns anos, venho me deparando com essa ideia do objeto artístico como patrimônio cultural. E ao reler o livro da Cristina Costa (O belo, a percepção estética e o fazer artístico) encontro no último capítulo, o subtítulo A arte como patrimônio coletivo. Durante todo o livro a autora fala sobre as diversas linguagens artísticas, enfatizando a sociologia da arte e a estética. O encerramento é dizendo que toda essa produção constitui patrimônio cultural coletivo, pois trata-se de um legado da própria história da humanidade. E quando nos detemos na tarefa de ler ou tentar interpretar esses objetos, ampliamos aí a nossa visão de mundo.
Nesse sentido, PATRIMÔNIO é tratado antes de tudo como herança, legado, bem coletivo.   E apresentar a arte, nas suas diversas linguagens, como patrimônio coletivo da humanidade e suas relações com a educação, pode ser um bom tema para a arte educação.  Pensei então em duas categorias muito comuns ao tema Patrimônio: valor histórico e valor artístico.  De modo geral, valor histórico corresponde às características relacionadas ao tempo histórico da produção da obra e os acúmulos de memória que esta veio adquirindo; valor artístico, são os elementos estéticos, que conferem ao objeto o caráter de arte. Pensando que a categoria VALOR é complexa para uma discussão tão rasa, pode-se pensar na palavra IMPORTÂNCIA como sinônimo, pois as obras podem ter sua importância histórica e artística.
        Definindo então as delimitações, surgiu a dúvida: COMO fazer esta abordagem conceitual de uma forma didática e breve ligando às linguagens artísticas? As linguagens artísticas aqui se referem à área de conhecimento dos PCNs, denominada Linguagem, Códigos e Suas Tecnologias, onde estão presentes a Língua Portuguesa, a Língua Estrangeira Moderna, a Educação Física, a Arte e a Informática. 
Pensei então na nomeação das artes plásticas e em outras linguagens artísticas que poderiam compor a lista: literatura, mini-série, fotografia, escultura, pintura. Totalizando nove linguagens artísticas, um número bom, que lembra as nove musas, divindades gregas relacionadas às artes, responsáveis por inspirar o homem a criar. Depois de definida a lista das linguagens artísticas, o próximo momento é escolher as obras a serem apreciadas. 
Abaixo, apresento algumas possibilidades de leitura para uma aula inaugural sobre as linguagens artísticas, partindo do ponto de que a arte é patrimônio coletivo e analisando duas categorias de valor, valor histórico e valor artístico.
                          

Tecendo as redes...
            As leituras de cada obra estão organizadas da seguinte forma: a linguagem artística, a obra escolhida e os comentários sobre o valor histórico e o valor artístico de cada uma delas respectivamente.

1. Literatura: O Retrato de Dorian Gray
Valor histórico – O livro retrata a sociedade inglesa do século XIX, nos seus detalhes da vida privada. Oscar Wilde é um crítico dessa sociedade cheia de regras de fachada e condutas veladas. A obra saiu em volumes em 1891. Continua como um dos grandes clássicos da literatura universal.
Valor artístico – A narrativa coloca o leitor diante de um espelho onde ele se vê a si mesmo refletido e com as marcas de todos os seus pecados.

2. Música: Ô Abre Alas
Valor histórico – Esta marchinha foi a primeira música feita exclusivamente para o carnaval (1899), por Chiquinha Gonzaga, para o Cordão Rosas de Ouro.
Valor artístico – Ainda hoje faz parte do repertório de carnavais de todo o Brasil, com inúmeras regravações.  O verso “Ô abre alas que eu quero passar” traz um forte significado simbólico que vem conquistando gerações.

3. Teatro: As folias do látex
Valor histórico – Márcio Souza escreveu esse texto nos anos 1970, momento de instalação da Zona Franca de Manaus trazendo fortes mudanças urbanas. O espetáculo foi apresentado em 1976, 1978, 1979 e depois em 2006.
Valor artístico – Trata-se de um vaudeville, com trechos satíricos e irreverentes que vestem a crítica aos costumes da sociedade da borracha.

4. Microssérie/Dança: Hoje é Dia de Maria
Valor histórico – Apresenta elementos que vão da linguagem teatral de bonecos, da dança, do cinema, da fotografia, além do figurino, música, etc. Em dança, a mini-série pode ser uma referência para a pesquisa de movimentos que caracteriza cada personagem.
Valor artístico – Uma viagem pelo universo do imaginário e do simbólico, com canções que nos levam à infância. A fotografia com uma luz que lembra as pinturas barrocas, é um dos encantos da obra.

5. Cinema: O violino vermelho
Valor histórico – Filme canadense datado de 1998, do original The Red Violin. Registra momentos como o trabalho do artesão-artista, do século XVII, passando pela Áustria do século XVIII, Inglaterra do século XIX e pela Revolução Cultural da China até chegar ao Canadá. O filme conquistou o óscar de Melhor Trilha Sonora.
Valor artístico – O filme passeia pela estética de vários períodos, do século XVII à contemporaneidade. A narrativa que conta a história com o passado como memória que é trazido à tona com as descobertas do personagem-chave, ajuda o espectador a ir descobrindo junto os segredos do objeto.  

6. Pintura: Tríptico Portinari dos Uffizi
Valor histórico – O retábulo dos Portinari é considerado único na pintura flamenga do século XV devido a suas proporções (2.53 x 3.04 cm. Foi encomendado por Tommaso Portinari, agente geral dos Médicis na cidade de Bruges. O tríptico chegou em Florença em 1478, permaneceu na Igreja de Santa Maria Nuova até 1897. Hoje pode ser visto no Museu de Uffizi, em Florença.
Valor artístico – Representa o estilo flamenco; tema comum representado de forma diferenciada; desarmonia proposital dos personagens; aspecto simbólico religioso medieval (preocupação com a salvação da alma); disposição das figuras como a deixar espaço para o espectador também adorar o menino. O quadro passa a ideia da união de mundos: o terreno e o celestial; a representação do quadro e o espectador real.

7. Fotografia: livro “Amazônia – Olhares”, de Ricardo Oliveira.
Valor histórico – O livro retrata a Amazônia com seus elementos humanos, com sua gente, diferente de outros olhares que a observam apenas do ponto de vista da natureza. Importante para a percepção do homem da e na Amazônia.
Valor artístico – A sensibilidade em captar as pessoas é uma característica do fotógrafo. Isso confere ao trabalho uma forte carga emotiva, ao menos para quem se identifica com as cenas retratadas, como o senhor que “salva” o santo da capela inundada pela cheia e da mãe que pacientemente brinca com seu filho dentro do rio.

8. Escultura: Diana Caçadora
Valor histórico – A escultura que está na Praça da Polícia em Manaus, é uma cópia em ferro de uma escultura em mármore que está no Museu do Louvre, que é uma cópia romana de um original grego. A peça também marca a ideia de composição de jardim público presente no final do século XIX e início do século XX em Manaus. Obra em ferro de uma fundição francesa que fechou nos anos 1980. Trazida para Manaus em 1906. Marca o uso do ferro como material para a construção de objetos para praças e jardins.
Valor artístico – No mínimo gera questionamento encontrar em uma praça de Manaus uma obra que nos remete à mitologia grega, com a deusa da caça e dos bosques. A peça faz parte de um conjunto escultórico temático, com o Hermes, Ninfa e Cachorro e Javali e Luta. Ainda que possa não ser uma obra única, por estar há mais de cem anos na praça, já marcou a memória de gerações como obra que embeleza o lugar.

9. Arquitetura: Teatro Amazonas
Valor histórico – Marco arquitetônico do ciclo econômico da borracha em Manaus. Todo o material foi importado da Europa, com exceção da madeira. Primeira obra da cidade tombada pelo Iphan em 1966.
Valor artístico – Ícone da estética da Belle Époque manauara e do estilo eclético que marcou a arquitetura da cidade de Manaus no final do século XIX e início do século XX. Palco dos principais eventos artísticos da cidade. Tem sua importância atestada como espaço das artes e como obra de arte.  

Amarrações...
                Do material apresentado podemos resumir que, o valor histórico de cada uma das obras selecionadas foram comentários relacionados ao conhecimento, contexto histórico, estando portanto no campo da educação. Enquanto que o valor estético, partiu da percepção e apreciação artística de cada uma das obras, constituindo também uma visão particularizada.

Como avaliar?
A avaliação é uma das partes mais complexas do processo ensino-aprendizagem, eu encaro como uma continuação do aprendizado. Para este esquema de aula pode ser recuso avaliativo a Participação, pois a aula pode ser dialogada. Outro recurso é a Pesquisa, selecionando-se um ou mais elementos para que os alunos façam novas investigações individualmente ou em grupo. Eu também gosto muito de usar os jogos como instrumento didático e avaliativo, então, poderia construir (ou os próprios alunos, depois da pesquisa), um Jogo no estilo do Perfil, onde 10 dicas são dadas sobre um determinado objeto até que o jogador acerte do que se trata. Ainda caberia uma Gincana entre grupos na sala de aula, com a imagem dos objetos abordados ou questões para que os grupos respondessem dentro de um tempo cronometrado.


Abrindo caminhos...
Abrindo Caminho é o título de um livro de Ana Maria Machado, que fala de ponte, estrada e avião que abrem caminhos. Esta aula bem que poderia ser também uma ponte para novas pesquisas e descobertas no campo das linguagens artísticas. Muitas foram abordadas e podem ser aprofundadas. No campo prático e fértil da arte educação, esta poderia ser uma aula introdutória sobre as linguagens artísticas e a partir dela, serem trabalhadas uma a uma e com a devida atenção, o teatro, a música, o cinema, as artes plásticas, a dança... Uma aula que não se fecha, ao contrário, abre caminhos.

REFERÊNCIAS:
COSTA, Cristina. O belo, a percepção estética e o fazer artístico. São Paulo: Moderna, 2004.
LEITE, Maria Isabel. Educação e as linguagens artístico-culturais: processos de produção e apropriação cultural de alunos e professores. Relatório de pesquisa. Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Disponível em:  http://www.gedest.unesc.net/relatorios/relat_educalinguagens_2004pos.pdf
MACHADO, Ana Maria. Abrindo Caminho. São Paulo: Ática, 2008.
OLIVEIRA, Ricardo. Amazônia – Olhares. Manaus: [s/n], 2011.
SOUZA, Márcio. As Folias do Látex. Manaus: Valer, 2007.
WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Nova Cultural, 2003.
WORMS, Luciana Salles, COSTA, Wellington Borges. Brasil Século XX: ao pé da letra da canção popular. Curitiba: Nova Didática, 2002.

Filmes:
Hoje é Dia de Maria, 2005. Globo Marcas. 9h26min.
O Violino Vermelho. 1998. New Line Productions. 130min.

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