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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sobre o bairro do Coroado






Márcio Souza falava aqui sobre o contexto social de Manaus à época da instalação da Zona Franca, nos anos 1970. Os governos populistas e a expansão desordenada da cidade estão entre as características principais deste período. Os bairros surgiam de invasões. As pessoas vinham do interior do Estado ou de estados vizinhos como Pará e Acre, movidas pelo novo ciclo econômico e promessas de melhores condições de vida na capital amazonense. Todos vinham para procurar emprego nas muitas empresas que se instalaram no Pólo Industrial ou para algum posto nos serviços que se abriam a partir dele.

Sou filha dessa época, cresci neste bairro do Coroado, que surgiu de uma invasão nas terras da Universidade do Amazonas (hoje UFAM), por volta de 1974, o ano em que nasci. Minha família comprou uma pequena casa de madeira em uma rua onde o asfalto demorou a chegar.  A casa era de tábuas azuis com ripas brancas, telhado de folhas de zinco e com assoalho elevado do chão (onde eu costumava brincar, quando estava seco). O terreno alagava sempre, por isso tiveram que buscar muita terra para planificá-lo. Lembro que havia muitas árvores frutíferas que minha avó plantava. E muitas flores e plantas medicinais. Herança da vida que ela tinha no interior do Acre, na cidadezinha chamada Tarauacá.  Tínhamos pé de laranja, banana, cana, lima, limão, abacate (não sei quantos destes minha avó plantou e quantos herdou do terreno). Uma quantidade  grande de tajás e papoulas, pé de algodão, além de erva cidreira e capim santo que fazíamos chá. No quintal da vizinha, tinha árvores enormes de andiroba. 

Nossos vizinhos eram essas lavadeiras e operários sem qualificação. Os mais velhos trabalhavam como domésticas, serventes, ou vendedores ambulantes. Os mais jovens, trabalhavam no Distrito, e na época, já era muito difícil conseguir uma vaga e a maior felicidade consegui-la. Lembro muito bem das festas sempre regadas a catuaba e conhaque de alcatrão (bebidas fortes e baratas), e carimbó e outros ritmos do Pará. 

Atravessávamos para o outro lado do bairro, passando por um buritizeiro tombado, essa era a nossa ponte. Era quase divertido, se não fosse perigosa aquela travessia (pelo menos eu tinha medo). Havia um igarapé que atravessava o bairro ao meio (hoje há um canal que recebe o nome de Avenida Beira Rio, de um lado e Avenida Beira Mar, de outro). Os ônibus passavam longe de casa, na pista principal (como era chamada a Avenida André Araújo). A poeira vermelha acompanhava os ônibus e as pessoas. 

As escolas chegaram quase junto com o saneamento básico, já no começo dos anos 1980. Lembro que eu ainda ia para a escola no ensino fundamental, no período em que as ruas estavam recebendo a tubulação de esgoto e era impossível voltar para casa sem a farda suja do barro vermelho. O asfalto e a tubulação de esgoto reduziram em quase pela metade, o terreno da nossa casa. Perdemos muitas árvores. Também lembro que distribuíam merenda na escola para que levássemos para casa, muitas famílias tinham naquele lanche uma grande economia para a pouca renda mensal (nós também). O governo distribuía brinquedos às crianças. Eram filas enormes e todos se atropelavam para pegar alguma coisa. Bonecas, bolas, bichinhos, todos de plástico. As crianças se amontoavam para pegar os brinquedos e os adultos se amontoavam para pegar rancho e sacolas de peixe.

Não havia discernimento nas crianças para entender o que se passava e talvez nem nos adultos. Só achávamos que estava tudo bem e que a vida ia melhorar.

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