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sexta-feira, 29 de março de 2013

Sobre a simbologia da arte cristã primitiva

O bom pastor, século III. Cripta de Lucina, Catacumba de São Calixto. Postal - acervo particular.

Nas catacumbas em Roma é possível encontrar pinturas que datam do século II e III e representam o início da doutrina cristã pelas imagens, pois são imagens dos primeiros símbolos do cristianismo, alguns deles conhecidos até os nossos dias. São desenhos simples, que como diz Gombrich, no seu livro História da Arte, não buscavam a representação realista das cenas, mas buscavam lembrar sobre os ensinamentos da doutrina cristã. Não era pela beleza da representação, não era pelo drama, tinha uma função didática. Usava-se o mínimo de elementos possível. Arnold Hauser, em sua História Social da Arte e da Literatura, também fala da intenção ilustrativa das pinturas. Muito mais que o interesse em detalhar estava o interesse em representar a ação.

Hauser chama de "arte simples e popular" essas primeiras representações, cujo objetivo era também "agradar ao gosto das classes inferiores". E apresenta algumas interpretações sobre o surgimento deste estilo. Para ele, as pinturas eram obras de "simples artesãos, amadores e pintores ingênuos", que não apresentavam talento mas que eram cristãos ou simpatizantes da doutrina. A arte que se praticava entre os mais ricos era obra de "artistas verdadeiros" e estes não simpatizavam com o cristianismo. Algum que simpatizasse e aceitasse trabalhar por uma pequena remuneração ou até de graça, talvez não o fizesse porque isso implicaria em abandonar suas formas de representação em função da simplicidade que a nova doutrina impunha, e isso o artista não estaria disposto a fazer. Por essas razões, a arte cristã primitiva tinha um caráter amplamente didático, não era uma arte autônoma, mas servia ao propósito de propagação da fé cristã. E esta era a sua função social.



O bom pastor (detalhe), século III. Cripta de Lucina, Catacumba de São Calixto. Postal - acervo particular.

Uma das representações que mais gosto é a de Cristo como "O bom pastor", uma metáfora para representar Cristo como aquele que cuida do seu rebanho, que busca a ovelha perdida, que é doce e protetor e que era pobre como eram a maioria dos primeiros cristãos. Nas cenas retratadas do nascimento de Cristo, há sempre a presença de pastores como os primeiros adoradores do menino-Deus. E no começo da doutrina cristã Ele também era apresentado como um pastor, com roupas e sandálias simples. Com a oficialização da religião cristã pelo Império Romano, esse pastor entronizou-se e passou a ser representado como o Rei.

O pastor da Cripta de Lucina, é o detalhe central da pintura. Apresenta sandálias de amarrar, uma túnica simples, traz uma ovelha ao ombro e os braços nus. Segura a ovelha com a mão direita e com a esquerda carrega talvez um barril de água. Aos seus pés aparecem outros dois animais. São poucos traços predominando os tons de ocre. Mas a imagem é forte e passa a mensagem: Cristo é o bom pastor.



Volta do cubículo. Cripta de Lucina, Catacumba de São Calixto. Postal - acervo particular.




Ressurreição de Lázaro, século III. Cubículo do Sacramento, Catacumba de São Calixto. Postal - acervo particular.

A ressurreição de Lázaro é um dos principais milagres de Cristo e está aqui representado com a simplicidade e a força da arte cristã primitiva. Vê-se à direita a figura de um homem com manto branco e a mão direita levantada em direção de outro que está em pé, em uma espécie de túmulo. Não há detalhes, mas quem conhece a história consegue reconhecê-la aqui. Os primeiros cristãos não sabiam ler. A doutrina era passada de forma oral e as imagens eram importantes para fazer lembrar.





Peixe eucarístico, século II. Catacumba de São Calixto. Postal - acervo particular.


O pão e o peixe estão entre as representações mais antigas do cristianismo e ainda em evidência nos dias de hoje. Alimento de pescadores, alimento preparado com simplicidade, multiplicado em um dos milagres de Cristo. Ele próprio se apresenta como alimento na eucaristia. Cristo é o pão que veio para alimentar o nosso espírito. E assim como pastor de homens ele também é um pescador de homens. A representação do Cristo como alimento, o trigo que se transforma em pão, a uva que se torna vinho, o peixe, voltam ainda hoje na semana santa para os católicos. Minha família ainda guarda a tradição de só comer peixe na semana santa e de manter silêncio e orações na sexta-feira da paixão. É um dia de simplicidade, e que me lembra essa simplicidade representada pelos primeiros cristãos.


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Obs.: Os postais aqui retratados foram adquiridos como souvenir nas Catacumbas de São Calixto e estão com o selo da Pontificia Commissione di Arqueologia Sacra Città del Vaticano, responsável pela divulgação e comercialização das imagens das catacumbas, que não podem mais ser fotografadas pelos visitantes.





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