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sábado, 19 de maio de 2012

Nícolas Jr. e a Geisislaine

Adoro as músicas do Nícolas Jr.!
Aproveito aqui para partilhar umas coisinhas que escreví sobre um dos grandes sucessos dele: Geisislaine.
 
   
Nícolas Jr.






A Divina Comédia Cabocla

 Nícolas Jr., músico paraense que reside e trabalha em Manaus desde 1998, em 2005, juntamente com dois personagens importantes da cena cultural da cidade, os jornalistas Aldísio Filgueiras e Joaquim Marinho, começa o projeto que resultará em dois cds intitulados Divina Comédia Cabocla.

As letras, trazem de forma bem humorada, a regionalização dos dramas dos anônimos, do caboclo manauara e sua maneira de se fazer presença na cidade. Tudo isto, visto de um olhar passante mas, também de fora e de dentro, personagem e narrador se confundem.



Para ouvir Nícolas Jr. cantando Geisislaine no youtube:




Geisislaine – Nícolas Jr.

Esta é uma das músicas que se tornou mais populares do Divina Comédia Cabocla 1. É muito comentada em diversos blogs, de autores manauaras. Trata de um drama de amor, que se constrói com fragmentos da cidade e dos espaços por onde os personagens transitam. A letra da música imita a linguagem coloquial, onde as conjugações verbais não obedecem à regras formais. O nome da personagem título, Geisislaine, reflete os termos estrangeirizados, que são comuns em Manaus, principalmente com a implantação da Zona Franca de Manaus e a popularização de músicas e produtos norteamericanos, a partir do final dos anos de 1960.


Eu lembro aquela manhã linda de domingo
você na laje tomando banho de mangueira
nos se olhemo e logo se apaixonemo
e nos juremo que ia ser pra vida inteira
domingo a tarde eu calçava meu all star
minha calça social e a camisa de tergal
você de shortinho de lycra laranjado
e uma blusa sensual com a foto do Magal

E na cabeça uma fita verde e branca
que nos ganhemo de lembrança da Amazonha Celular
na cintura uma carteira de Derby
um corote na pochete e saia a passear


O drama começa no domingo, pressupõe-se que durante a semana os personagens estão trabalhando. E a manhã de domingo, é a grande folga da classe operária. O banho de mangueira na laje é um evento nas manhãs de domingo em muitos bairros da periferia de Manaus, os bairros da Zona Leste da cidade, por exemplo. Os espaços entre as casas são mínimos ou inexistentes e o que se torna espaço social e privado ao mesmo tempo, é a laje. De onde as pessoas olham, de cima, a rua e outros vizinhos em outras lajes. Podem ver e ser vistas.


Se pela manhã, a laje é um lugar de encontro, a tarde de domingo é dedicada ao passeio e para isso, é preciso estar vestido apropriadamente, da melhor forma possível mas, bem à vontade. Nícolas descreve a vestuária, como um identificador próprio de uma classe social, ou grupo social. E como se vestem com as marcas e revelam seu gosto.


Primeiramente o Balneário da Dengosa
em seguida Ponta Negra e depois praça do DB!
a noite ia pros boteco, tomar cerpa e jogar bilhar
passava a noite nos brega lá da Grande Circular


A Avenida Grande Circular é a principal via de acesso que liga os bairros da Zona Leste da Cidade. Famosa por seus acidentes de trânsito, pelo intenso comércio em toda a sua extensão e pelos bares. Neste trecho, além dos bares que permanecem abertos por toda a noite, estão localizadas as casas de forró, entre elas, o Balneário da Dengosa, que funciona normalmente também aos domingos. Esta Avenida também é conhecida como a Avenida das casas de forró, para onde se dirigem jovens de todos os pontos da cidade.

A Ponta Negra é uma das principais áreas de lazer dos manauaras. É uma praia de rio que fica no perímetro urbano. O transporte coletivo foi reforçado para atender esse trecho e o aumento da demanda de visitantes, principalmente nos finais de semana. O que ainda não conseguiu evitar as grandes filas nos finais de tarde, para pegar o ônibus. As pessoas geralmente vão em grandes grupos, para tomar banho, jogar futebol, volei... Tem sempre música ao vivo e muitos bares. É o espaço utilizado pelo governo para as grandes apresentações populares como a queima de fogos no revellon. O DB é uma rede de supermercados espalhados pela cidade, com praça de alimentação sempre com música ao vivo.


Oh Geisislane, Geisislane meu amor
por que você pegou aquele barco
não deixou nenhum recado e se mandou pro interior
oh Geisislane, mande uma carta por favor
aproveita e manda uma fardo de farinha
e a cassete da Calypso que você me emprestou








Este é o refrão da música, que apresenta o desfecho da história. Pegar o barco significa deixar a cidade e não deixar endereço. A referência à carta, que aqui funciona como um apelo dramático à história, também nos leva a pensar que a comunicação tecnológica como celular e internet, ainda não não funcionam ou funcionam de forma muito precária em  muitos pontos do interior do Estado. Do interior, sempre se espera produtos como a farinha, que estabelece uma comunicação cultural grastronômica entre o centro urbano e o interior. E mesmo dominando de alguma forma a tecnologia de vídeos, dvd e cd, ainda é possível encontrar em algum lugar da Zona Leste da cidade de Manaus, pessoas ouvindo seus rádios com fita K-7 e estas ainda serem vendidas em alguma loja empoeirada. A Banda Kalypso, à qual se refere nesse refrão, é uma banda paraense, com grande público em Manaus. E que atualmente se tornou conhecida em todo o Brasil.



Impressionava o seu cabelo bicolor
ao som de Fernando Mendes a gente acasalava
sonhava em ter um fusca totalmente incrementado
atrás escrito “turbo”  e um terço no retrovisor
e o cordão grosso de prata que te dei de aniversário
ela esqueceu la na gaveta do armário
ficou ainda um turiri do Carnaboi
um autógrafo do Nunes e um pinguim de geladeira
a camisa do Rio Negro e o poster do Arlindo
e a foto que ela tirou com um ex-vereador


Aqui, muitos outros fragmentos que constituem o que se poderia chamar de cultura popular da Zona Leste de Manaus. As mulheres costumam tingir os cabelos sem fazer reaplicação periodicamente, o que deixa sempre dois tons, com a raiz mostrando a cor natural do cabelo. Esse detalhe é também um indicativo à qual classe se pertence. O gosto musical permanece com os artistas que marcaram os anos 80, mesmo que outros sejam inseridos no cenário atual. Fernando Mendes, continua como trilha sonora para os casais apaixonados. Nícolas marca o limite dos sonhos: um fusca. As jóias valorizadas são a prata e hoje, mais comumente, o aço.


Ainda é preciso uma espécie de glossário para entender a continuidade da letra, pelas especificidades regionais que trata. Tururi, é uma espécie de abadá, usado nas festas de boi, na cidade. Carnaboi, é o carnaval com ritmo de boi, que aconteceu nas últimas noites do carnaval em Manaus. Nunes, é o cantor de brega, Nunes Filho, muito popular na periferia da cidade. Arlindo, é Arlindo Jr, cantor de toadas, que ficou conhecido como o pop da selva, levantador de toadas do Boi Bumbá Caprichoso.


Durante o texto me referi muito à Zona Leste da cidade porque morei por quase toda a minha vida nessa área, no mesmo bairro. E essa música do Nícolas me remete a cenas da adolescência, são personagens com os quais convivi e ainda vejo caminhando pelas ruas. Nícolas Jr., consegue de uma forma bem humorada e até debochada, apresentar uma outra realidade da cidade de Manaus. Não conversei com ele para escrever esse texto. O que registrei aqui foi tão somente minha mania de querer entender os discursos e tentar situá-los dentro do seu contexto. São exercícios que gosto de fazer!


2 comentários:

  1. Evany, adorei seu post interpretando, explicando e conceituando termos da música do Nicolas Jr. Isso é muito importante para aqueles que gostam e não entendem muito ou para aqueles que não gostam porque não entendem e a partir do momento que passam a entender é que passam a gostar. Parabéns! Esse artista que eu admiro e amo suas músicas e seu trabalho. Realmente ele e seu trabalho devem ser cada vez mais valorizados e destacados.

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  2. Olá, Catarina! Que bom que você gostou! Também sou admiradora do trabalho do Nícolas há bastante tempo. Gosto particularmente da relação que ele faz da música com o espaço da cidade. É uma forma de tradução cultural, de narração do cotidiano. Adoro o humor que ele coloca nas letras e nas escolhas musicais. Em breve publicarei mais coisinhas sobre as músicas dele e de outros artistas amazônicos.
    Inté...

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