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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"Lugares que o dia não me deixa ver - 2ª edição" - Um percurso de luz no Centro

Às 18hs, momento mágico em que o dia recebe a noite e muitos retomam seus caminhos de volta para suas casas, a cidade muda de cor e eis que começa um jogo de forças entre a visibilidade e a invisibilidade. Entre o que é antigo e cuidado e o que é antigo e esquecido. O Centro Histórico de Manaus, cujos espaços se fecham porque o centro comercial precisa dormir, deixa na escuridão boa parte de seus casarões antigos. Durante o dia, não os vemos porque passamos apressados para o banco, para estacionar, para o ponto de ônibus, para trabalhar... estamos sempre atrasados e correndo. Quem corre não vê muita coisa ao seu redor. Á noite, não os vemos porque também passamos apressados, com medo da escuridão e de tudo que possa vir com ela (violência, assaltos, buracos no caminho, animais peçonhentos, moradores de rua). Ou então nem passamos por esses lugares. À noite nosso percurso busca a luz!

É nesse momento do abraço da noite que embala o centro comercial e põe para dormir todos os prédios na mesma escuridão, que alguns se destacam e ganham vida, num breve momento de festa de luz e cor. Às 18hs alguns casarões são escolhidos para fazerem parte do olhar carinhoso, saudoso, contemplativo, piedoso, descrente,  esperançoso de quem passa. Como no conto da Cinderela, eles são vestidos para o baile, para chamar a atenção dos olhos do príncipe, na esperança  de nunca mais voltar à vida de cinzas.


Casarões do Centro Histórico de Manaus durante o dia.  Foto: João Fernandes.

O projeto "Lugares que o dia não me deixa ver", coordenado pelo articulador cultural João Fernandes, do grupo Cia de Ideias, promove este momento de destaque a alguns pontos escuros do nosso Centro Histórico. Trazendo uma iluminação cênica às fachadas de prédios esquecidos, chama a atenção do nosso olhar para o descaso que toma conta de boa parte dos casarões que outrora foram espaços cheios de vida.

Casarão na Avenida Eduardo Ribeiro

Este casarão da Avenida Eduardo Ribeiro faz parte de um conjunto arquitetônico completamente abandonado, em um quarteirão entre o Teatro Amazonas e a Praça do Congresso, ambos espaços de destaque do Centro Histórico e iluminados à noite. Junto dele, mais um prédio aguarda silenciosamente as ações do homem, para revitalizá-lo, ou do tempo, para apagá-lo. No outro prédio, funcionava até final dos anos 1990, a Junta Comercial do Amazonas - JUCEA. Hoje, apenas uma placa está no local indicando o que foi. Talvez sem ela, nem isso lembraríamos. Nossa memória desaparece, como esses prédios.


Casarão com sacada na esquina da Monsenhor Coutinho com a Ferreira Pena.

Este outro, em uma esquina de trânsito intenso de saída do Centro, ganhou destaque que chamou atenção principalmente dos motoristas, que provavelmente nem lembravam que havia um prédio ali naquela esquina. Assim como os outros prédios abandonados, as janelas estão fechadas, vedadas, a graciosidade da sacada já foi perdida há muito tempo, mas sua nobreza de casarão de esquina ainda resiste. É um prédio altivo, talvez até feminino, pelas características arredondadas.

Basta ficar neste cruzamento por alguns minutos, para perceber que é uma rua para carros à noite. Pois por ser mal iluminada, as pessoas não se arriscam a passar por elas caminhando.

Casarão com sacada na Avenida Epaminondas

Este casarão, na Avenida Epaminondas, talvez tenha sido o mais visto neste percurso dos três casarões. Sua localização, em uma das principais vias de acesso ao Centro, principalmente para os coletivos, possibilitou muitos olhares à fachada que ganhou cores. Este trecho também é iluminado e muitas pessoas caminham por ele para chegar à parada de ônibus que fica na frente da Praça da Saudade.




Por ali passaram muitas pessoas, do lado do prédio e do outro lado da rua. Algumas paravam e ficavam olhando, não se demoravam muito. Algumas arriscavam pegar o celular e fazer um registro. Outras passavam em grupo e comentavam. Teve gente que parou o carro e fotografou. E houve quem viesse fotografar por encomenda de outro que coleciona imagens da cidade. A maioria sorria. Um riso melancólico? De deboche, talvez? Ou de solidariedade? Talvez pensassem: "Pobre casarão, tão esquecido! Que luz é essa?" A luz significa vida. E quando um prédio está iluminado ele está vivo.




Um senhor que passava pela frente do prédio, parou e olhou. Depois descansou suas sacolas e ficou mais um tempo olhando tudo, tentando entender. Eu perguntei: "Gostou?" E ele me respondeu com outra pergunta: "Vão reformar?" E com mais uma pergunta eu respondi: "Seria bom, né?" Ele aproveitou para contar suas histórias ali naquele trecho da cidade. No final, disse categórico: "Isso aqui tá abandonado!" E seguiu seu caminho, catando latinhas de cerveja no lixo.

Um verde de esperança?
A festa está programada para terminar às 22hs. As luzes se apagarão. Os casarões voltarão ao cinza invisível na noite. Talvez fiquem na memória de quem por lá passou, registrou... Talvez tenham a sorte de encantar os olhos do príncipe. Talvez no dia seguinte uma caça ao casarão iluminado da noite, aconteça, fazendo-o voltar à memória da cidade. Talvez...

Na dinâmica contemporânea que determina que "o que não é visto, não é lembrado", parte da nossa cidade está desaparecendo porque não a vemos mais. Porque tudo foi ficando sujo e feio... e as pessoas passam cada vez mais apressadas para evitar o que está sujo e feio. Uma luz numa fachada é capaz de mostrar que há beleza escondida por trás do abandono. Que há memórias nossas presas nas paredes. Um foco de luz à noite, nos mostra esses lugares que o dia não nos deixa ver.




Composição com as cores da sacada


Convite do projeto "Lugares que o dia não me deixa ver". Imagem: João Fernandes

A cidade é cruel com o que envelhece, e esquece. Mas nós também envelhecemos.

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