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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Força Que Nunca Seca

A força que nunca seca
(Chico César – Vanessa da Mata)
Cd: Vanessa da Mata

Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita

O que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta

Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta

E a força nunca seca
Pra água que é tão pouca


Tão linda que dói! Porque a beleza também dói!
Pensando o que é a beleza na arte, nos vários conceitos de beleza, no poder que a arte tem de representar a realidade e no próprio conceito de arte, esta música me permitiu algumas reflexões.
Aqui não há como ignorar o poder da arte em apresentar, com beleza, a realidade. E aqui, a beleza está no cotidiano, o mais comum dos acontecimentos, é visitado com a beleza da poesia, da música, da voz. E é elevado à oração, à arte, à beleza que dói de tão tocante e forte. A simplicidade como tema.

E pensando sobre a completude do objeto de arte X a lógica da compartimentação, não se pode aqui, usar a lógica cartesiana e dissecar em partes para se analisar a obra. Dessa forma, ela perde todo o sentido de ser obra de arte. Porque aqui, a beleza é alcançada pela interdependência de vários fatores, que se, vistos isoladamente, perdem a força.

Um objeto banal: a lata. O que é a lata? O resto da sociedade industrial que as pessoas sabiamente conseguem encontrar uma outra utilização, outro significado, novos usos. Me detive no tipo de lata a qual a música, talvez se referisse. Logo me veio em mente as latas de tinta, que chamamos “galão de tinta”, usado em construções. E ao ouvir a música, a imagem de uma mulher com uma lata dessas carregando água, me foi imediata. Eu vivi essa realidade. Também lembrei de outra música: “lata d’água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria; sobe o morro e não se cansa, pelas mãos uma criança, lá vai Maria”. Essas músicas abordam a mesma temática, mas fazem de formas diferentes, ritmos diferentes e provocam efeitos distintos também. Por que? Porque a intencionalidade em ambas é diferente. A carga dramática da letra de Chico César e da voz de Vanessa da Mata, é maior. A música bebeu o sentido dramático da letra, reforçando-o. A voz leve concebeu ao tema quase uma oração. As cordas, apoiando o caminhar da voz, parece intensificar o drama e seriedade com que o tema é tratado. Os instrumentos só conduzem, apóiam, não são eles o centro das atenções, mas a voz, entoando a oração. E o tema não é mais a lata. Ela é apenas usada como um artifício para falar da força da mulher, ou da pobreza e escassez de tão vital bem: a água; ou de uma beleza suplantada pela rotina que entorta seu corpo sofrido.

No final de tudo, podemos fechar os olhos e esquecer tantas teorias explicativas e buscar o sentido na nossa sensibilidade estética e capacidade de percepção do que nos rodeia. Fechar os olhos e deixar que a música, a voz doce nos penetre pelos poros do sentido; mergulhe nas nossas emoções; mexa com o que temos de bom e ruim em nós, nossas lembranças, medos, experiências. Se conseguimos sair da condição de expectador passivo e nos tornamos a extensão dessa força que emana dos sons, dessa beleza que nos toma, sentiremos a necessidade da arte em nossa vida. E entenderemos porque ela é inútil e porque precisamos tanto dela para não esquecermos o que há de humano em nós.

É preciso ouvir... sentir... deixar que a música nos penetre pelos poros.


Além da belíssima interpretação da Vanessa da Mata, Chico César e Maria Bethânia nos brindam com uma versão memorável: http://www.youtube.com/watch?v=oHO4oeWT62o. Num clima intimista de ensaio, Bethânia - que como disse um amigo meu, não canta, atua - acompanhada por Chico César, exploram a intensificam a beleza e o drama da música.

Na sala de aula

Esta música rende uma boa atividade em sala de aula. Uma atividade interdisciplinar sobre o tema: a lata. Quais os tipos de lata que temos em nossa casa? De que material é feito? Como é seu descarte? Quanto tempo leva para se decompor? Quais as implicações para o meio ambiente? O que pode ser usado em substituição à lata? Estas são questões sobre sustentabilidade, educação ambiental e design. Também pode ser feita uma análise de rótulo das latas, separá-las por categorias: latas de leite, latas de tinta...

Um aspecto sócio-cultural: "senhora com a lata na cabeça". Toda a música fala sobre essa situação da falta d´água, um problema que ainda enfrentamos em nossa cidade. Ainda hoje as pessoas usam latas para transportar e armazenar água? Ou elas já foram substituídas pelos baldes de plástico?

São ideias que podem ser desenvolvidas e ampliadas.
Até a próxima!

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