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sábado, 17 de maio de 2014

Inquietudes (que não são apenas) argentinas sobre as bibliotecas populares

A FEIRA
* Thiago Giordano Siqueira



A Feira Internacional do Livro de Buenos Aires ocupa mais de 45 mil metros quadrado e é mais concorrida no mundo de fala espanhola. Durante três semanas de duração, as estatísticas indicam mais de um milhão de leitores e mais de dez mil profissionais do livro: escritores, editores, ilustradores, etc.

Mais que escritores famosos e celebridades, me chamou a atenção o stand do Governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires, convocando por meio da Secretaria de Cultura a população presente na feira a participar de uma “Charla Abierta” sobre as bibliotecas do futuro.

OUVINDO A COMUNIDADE



Cheguei pensando que o discurso seria sobre os e-books ou sobre crescimento da documentação escrita, uso de tecnologias ou algo assim visto que havia muitas editoras promovendo seus serviços nesse aspecto durante a feira.

Para minha surpresa foi bem além disso, fizeram o tal do “pensar fora da caixa” em vez de reproduzir “mais do mesmo”.  Observei que havia cartazes coloridos e pessoas que convidavam quem passava pelo corredor a deixar sua opinião sobre:

“Como você imagino a biblioteca do seu bairro no futuro?”
“Você conhece a biblioteca do seu bairro?”
“Que atividade você gostaria que tivesse na biblioteca de seu bairro? ”

Tomei lugar na plateia, que estava bem tímida, e observei atentamente a conversa que começou com mais ou menos oito pessoas. Cada pessoa era convidada a relatar experiências e compartilhar o que acontecia na biblioteca de sua comunidade ou o que gostaria que fosse feito. Aos poucos, foi chegando mais pessoas e deixando ali suas contribuições.

A quase dois meses vivendo em Buenos Aires, conheci poucas bibliotecas populares mas muito me chamou atenção o fato de que muitas delas desenvolvem workshops, oficinas, assessoria aos estudantes de primária ou coisa do tipo. Ou seja, do ponto de vista social, cumpre sua função como um espaço democrático que propicia e fomenta o acesso a informação e a cultura.

O QUE QUEREM OS USUÁRIOS?


Mas nada melhor que ouvir os usuários, aqueles que fazem (ou não) o uso real da biblioteca. Abaixo destaco algumas inquietudes e sugestões dos participantes agrupadas de acordo com suas pertinências. 



CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FALAS
Diante os apontamentos, é obvio notar-se que as bibliotecas, principalmente as populares devem sair um pouco do molde tradicional de ser um espaço de consulta a livros e ajustar-se, na medida do possível as necessidades da comunidade.

Realmente, as bibliotecas populares precisam adequar a infraestrutura para que se tornem mais atraentes e ainda servir como ponto de cultura independentemente do tipo de manifestação artística que seja.

Referente ao acervo e infraestrutura creio que esse é um problema em muitas bibliotecas públicas, os usuários defenderam que pode ser velho o livro mas conteúdo desatualizado não deve ocupar espaço nas estantes.

Quanto a ser um espaço de formação a crítica foi que tais atividades não ocorrem de modo regular por ser muitas vezes um trabalho voluntário.  

Como ponto de encontro, os usuários seguem o que já apresenta as últimas pesquisas biblioteconômicas e de empreendedorismo e economia colaborativa ao tratar de coworking – espaços compartilhados.

A comunidade quer um espaço agradável para conversar e trocar ideias, e isso pode trazer benefícios ao atrair mais gente e buscar soluções conjuntas para problemas.

Os serviços apareceram duas variáveis. Primeiro a entrega a domicílio que seria uma excelente prática tendo em vista que aqui há muitos idosos e sentem certa dificuldade para se locomover até as bibliotecas. Poderia ser feito então um pacote ou uma atividade de extensão da biblioteca (claro que não estou considerando o fator recurso humano disponível). Em segundo, a falta de computadores com acesso à internet. Sim, há pessoas que não possuem computadores em casa ou dinheiro para pagar um pacote de conexão. Logo, a biblioteca estaria mais uma vez sendo útil.

ACERVO ABERTO: sim, queremos!



Por fim, destaco em um parágrafo único: estantes ou acervo aberto. Quase que uníssono os usuários clamaram pelo acesso aberto as estantes. Esse tema divide águas entre gestores de bibliotecas. Ah, amigos bibliotecários, como gostaria que tivessem presenciado a fala de uma garota de 12 anos quando disse: - Eu queria tanto chegar às estantes, pegar os livros, poder comparar os conteúdos, saber se tem alguma coisa a mais que eu poderia ler nos próximos dias.

Fiquei emociado! Claro, antes de ser bibliotecário sou leitor e entendo o sentimento de curiosidade e frustração ao mesmo tempo dessa garota. Por mais que munidos de técnicas, conhecimentos gerias ou bom gosto, a escolha de um livro é um processo subjetivo de identificação e jamais seremos capazes de zerar as expectativas ou necessidades de informação de alguém.

Tudo tem os prós e contras e depende de muitos fatores, senão começaria agora mesmo uma nova campanha para caminhar junto com o movimento Abre Biblioteca e acabar com esse distanciamento entre os usuários e os recursos disponíveis: ABRE ACERVO!

Em todo caso as bibliotecas populares dependendo do grau dos serviços oferecidos, podem ser espaços atrativos desde que haja empenho em estar motivado para fazer o uso criativo e inovador desses espaços no que diz respeito as atividades e recursos. Sabemos que a mudança é lenta mas não podemos perder a esperança.

Fotos: Thiago Giordano Siqueira.

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* Thiago Giordano Siqueira é bibliotecário e está cursando mestrado em Buenos Aires - Argentina.


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